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	<title>Memória do Povo</title>
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		<title>Vita</title>
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		<pubDate>Sat, 12 Dec 2009 03:27:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bill</dc:creator>
				<category><![CDATA[Música, Canto e Dança]]></category>
		<category><![CDATA[Vozes de Mestres]]></category>

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		<description><![CDATA[Festas e rituais]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h3><center>Vita, a vida com as cores e o batuque da congada</center></h3>
<p><center><object width="500" height="405"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/dQ04o7zFOkA&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;rel=0&#038;color1=0x234900&#038;color2=0x4e9e00&#038;border=1"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/dQ04o7zFOkA&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;rel=0&#038;color1=0x234900&#038;color2=0x4e9e00&#038;border=1" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="500" height="405"></embed></object></center><br />
<center>Filha e esposa de colonos de fazenda, Vita viveu grande parte de sua vida na roça. Um dia veio passear na cidade, Espírito Santo do Dourado, e se encantou com a festa da congada.<br />
Inebriada com as cores e o batuque, passou a acompanhar os ternos de congo. Devota de São Benedito, arreou um cavalinho da fazenda e, de porta em porta, passou a pedir prendas para a festa do seu santo. Tomou tanto gosto que, quando foi morar na cidade, continuou festejando São Benedito.<br />
Hoje já não dança mais, mas seus filhos e netos estão no batuque e isso é de grande gosto para ela.<br />
</center></p>
<h4><center>Infância sofrida</center></h4>
<p>Eu nasci e me criei no bairro Fazenda dos Coqueiro, do Senhor Jovino Cândido, município de Espírito Santo do Dourado. Cresci ajudano minha mãe a criá meus irmãozinho. Quando eu tinha treze ano, minha mãe ganhô nenê e ficô doente e eu fiquei zelano dela e da criança. Quando eu peguei uns catorze ano, eu fui ajudá meu pai na roça.</p>
<p>Na minha infância nóis brincava de boneca de pano e de fogãozinho, mais brincava poco, porque tinha que trabaiá. Minha mãe ensinô nóis a fazê o serviço de casa e a rezá. Ela era muito boazinha, não era brava não, mais se nóis saía e demorava pra vortá, apanhava.</p>
<p>Nunca fui na escola, não sei lê. Minha vida foi muito sofrida e corrida, passei muita necessidade. Nóis vinha poco na cidade, meu pai não gostava muito, mais uma veiz nóis viemo numa Festa do Rosário e aí eu vi uma congada pela primera veiz. Nóis viemo a pé, porque nem caminho de carro não tinha. Punha o sapato no borná, chegava ali na ponte limpava o pé e punha o sapato e, na hora de ir embora, tirava o sapato de novo e ia descarço. A ropa era de saco. </p>
<p>Já fui umas par de veiz em Aparecida do Norte. Nóis ia de caminhão e ficava lá de rancho. Era uma casa grandona e os romero ficava tudo lá e cozinhava no fogão de lenha. Nóis chegava num dia, faiava um e vortava no otro.</p>
<h4><center>A vida com o marido</center></h4>
<p>Com dezessete ano eu casei e fui continuano o serviço na roça, junto com o meu marido. Conheci meu marido porque nóis era vizinho. Nóis plantava feijão e mio. Ele era retirero, levantava treis hora da manhã pra tirá leite e eu ficava cuidano das plantação e dos fio. Quando eu ia apartá bezerro, pegava um cavalinho que eu tinha, punha dois fio dentro do jacá e mais dois do otro lado, levava um no colo e ia ajudá meu marido na rocinha dele e de tarde nóis ia embora. Nóis era colono nessa fazenda e essa rocinha era de ameia.</p>
<p>Depois de uns tempo, nóis fomo trabaiá na fazenda do sinhô Lalá e da dona Dorotéia. Eles era bão demais, então nóis pudemo comprá uma casinha aqui na cidade. Agora que miorô um poco, meu marido morreu e tá seno difícil vivê sem ele.</p>
<p>Eu gostava dum forró, quando eu perdia um forró eu sentia muito. Tinha forró perto da minha casa, lá na fazenda e o meu marido ia tamém, mais aí a fiarada foi aumentano e foi ficano difícil. Eu tive doze fio, quatro morreu pequenininho e um morreu com trinta e dois ano.</p>
<h4><center>A congada</center></h4>
<p>Quando eu vi congada pela primera veiz, eu gostei muito e já dancei muito nos terno de congo, no terno do sô Felipe, lá de São João da Mata, mais, depois que eu casei, larguei mão disso, tá loco! Nós ia dançá o congo em Santana (<strong><em>Silvianópolis</em></strong>) e aqui na Praia (<strong><em>Espírito Santo do Dourado</em></strong>). A ropa da congada era tudo branca, eles jogava uma capona nas costa e amarrava no pescoço. Na congada só tinha negro. E eu vou falá verdade! Os moreno sabe chacoaiá bem mais que os branco. Presta atenção pro cê vê: a congada dos preto pula muito mais que a congada dos branco. Os preto tá suano, pingano e não entrega, nunca vi! Os moreno são forte no batuque.</p>
<p>Hoje eu não danço, mais faço a Festa do Congo, pra cumpri uma promessa que eu fiz pra São Benedito. Primeramente eu marco a data da Festa, aí pego meu caderno e saio pra pegá assinatura do povo que vai dá as prenda. Depois vô na delegacia pra tirá o alvará da Festa, aí depois que eu peço o ajutório, aí eu passo de vorta pra arrecadá. </p>
<p>A primera Festa que eu fiz, eu morava na roça ainda, já faiz vinte e quatro ano. Naquela época saía bezerro, leitoa e frango, era umas esmola boa. Eu saía a cavalo pra pedi as prenda, agora eu vô a pé e às veiz pego carona na estrada. Às veiz escurecia e eu tava pras estrada ainda. Quando eu chegava em casa, o povo tava dormino, meu marido tava de cara feia e já tinha comido e não tinha deixado nada pra mim comê. Aquilo dava um desânimo ni mim! Ele não gostava que eu andasse pra pedi esmola pra Festa, mais no otro dia eu tava naquele batido de novo. </p>
<p>Já fiz quatro festa aqui na cidade e tinha cinco terno de congo. Já troxe duas companhia de Santo Reis tamém. A última Festa tinha dez terno de congo. Vem terno de congada do sô Filipe, do seu Nende, de Machado, de São Gonçado, de Turvolândia, de Ipuiuna. É muito divertido, eu gosto de mexê com festa. A primera Festa foi pra cumpri promessa, mais agora eu faço porque eu gosto memo! Já alcancei muitas graça de São Benedito; ele é poderoso e milagroso.</p>
<p>Os doce da Festa eu faço aqui no meu terrero memo! Tem doce de abóbora, de cidra, de casca de laranja. Dá umas quarenta e cinco lata de doce. A Festa começa na sexta e vai até segunda. Quando eu vô fazê os doce, enche de gente aqui no meu cantinho pra ajudá a descascá as fruta.</p>
<p>Meu neto fundô um terno de congada e, como eu gosto, dei apoio pra ele. Meus neto dança nos terno de congo. Eu tenho seis neta e oito neto dançano no terno de congo. É tudo da família. A ropa do terno, eles ganharo do Prefeito daqui (<strong><em>Adalto Luis Leal</em></strong>) e os instrumento, meu neto comprô. </p>
<h4><center>Outras alegrias</center></h4>
<p>Eu gosto demais de Festa e de trabaiá na roça tamém. Semana que vem eu vô vê se arrumo um serviço de quebrá mandioquinha. A mandioquinha não é só arrancá não, ocê tem que quebrá e pô nas caixa. </p>
<p>Otra coisa que eu gosto tamém é de brinco, colar e anel. Eu sô pió que cigano! Mais a minha alegria memo é ouvi o batido do congo e de Folia de Reis.</p>
<p>Uma veiz morreu um primo meu e eu fui no velório, tava todo mundo chorano e eu tamém. Ele morreu no dia cinco de janero e nóis fomo pra Igreja de Santo Antônio (em Pouso Alegre) na missa desse primo. Aí passô uma Folia de Reis lá de Poços de Calda e tava aquela choradera. Quando eles dero uma batida naquelas caixa e uma arranhada naquela viola, minha tristeza foi embora, larguei o povo chorano, saí quietinha escondida da minha tia e fui vê a Folia de Reis. É muito bonito aquilo, uai!! E a coitadinha da muié pensano que eu tava ali chorano e eu já tava lá veno a Folia de Reis cantá. </p>
<p>Agora eu tô ficano cansada. Então, o ano que vem vai sê a última Festa de Congo que eu vô fazê. Vô deixá pros neto tomá conta. E eu peço a Deus que a congada do meu neto seja bem bonita!</p>
<p><center><img src="http://www.memoriadopovo.com.br/v1/wp-content/img/barra01.png" border="0" /></center><br />
<em><strong>Maria Vital de Jesus</strong> (Vita), 67 anos, reside no centro de Espírito Santo do Dourado, MG. Entrevista realizada em sua residência no dia 11 de outubro de 2009.</em></p>
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		<title>Odilon</title>
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		<pubDate>Sat, 12 Dec 2009 03:20:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bill</dc:creator>
				<category><![CDATA[Música, Canto e Dança]]></category>
		<category><![CDATA[Vozes de Mestres]]></category>

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		<description><![CDATA[Música]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h3><center>Odilon, o fruto e a memória de Nonô e Naná</center></h3>
<p><center><object width="500" height="405"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/GzsPBMRpnFw&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;rel=0&#038;color1=0x234900&#038;color2=0x4e9e00&#038;border=1"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/GzsPBMRpnFw&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;rel=0&#038;color1=0x234900&#038;color2=0x4e9e00&#038;border=1" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="500" height="405"></embed></object></center><br />
<center>Nascido em um ambiente de artistas, foi embalado pela voz maviosa de Naná, sua mãe e pelos acordes de Nonô, seu pai. Durante as maratonas de shows que os pais faziam pelo país, seu berço era a caixa do violão.<br />
Não daria outra, era pura matemática e se tornou músico. Memórias ternas de uma família sintonizada na preocupação em dar a ele e a seus irmãos muito mais que a música, mas uma formação de caráter.<br />
Nonô e Naná, uma dupla que registrou sua arte e deixou grandes lembranças, &#8216;Mágoa de Boiadeiro&#8217;, &#8216;Casa de Caboclo&#8217;, &#8216;Cavalinho Branco&#8217; e tantos outros sucessos memoráveis. Felizmente, a arte não vai embora e seus filhos estão afinados com ela, seja no violão, no violino ou no canto.<br />
</center></p>
<h4><center>Infância musical</center></h4>
<p>Eu nasci em São Caetano do Sul e desde a minha infância eu já acompanhava meu pai ensaiando com a minha mãe. A gente desde cedo já tinha esse contato com a música e com os instrumentos. Minha casa sempre tinha dois ou três violões na sala. Cada vez que meu pai pegava um violão eu já pegava outro e a gente ia brincando e acompanhando e eu cresci nesse ambiente musical.</p>
<p>Quando numa determinada época, lá pelos meus nove anos de idade, meu pai comprou uma escaleta (<strong><em>instrumento de sopro</em></strong>) pra mim e eu comecei a brincar com o instrumento. Acho que ele já fez isso meio de propósito, né? Deixou na minha mão, ele sabia que criança é curiosa e tem facilidade, então comecei a acompanhar as introduções das músicas e foi aí que eu comecei profissionalmente. Passei a fazer parte dos shows nos circos e nos programas da Rádio Nacional. Isso foi nos anos 60 e eu estava com onze anos e foi aí que a minha carreira de músico começou.</p>
<p>Mais tarde nós formamos um grupo de música sertaneja, junto com meu primo e outros amigos. Tanto na família do meu pai como na família da minha mãe ou tem alguém que canta ou alguém que toca algum instrumento. Mesmo com o grupo, eu sempre estava acompanhando meu pai. Em 1981, nós tínhamos um projeto na Secretaria de Cultura de São Paulo, aí eu deixei de acompanhar meus pais e formei meu grupo chamado ‘Cheiro da Terra’, cantando música sertaneja. Gravamos um disco pela Continental, em 1982.</p>
<p>Desde a época do meu grupo eu já tocava viola e chegamos a gravar duas músicas do meu pai, cantávamos muitas composições dele e de outros também. Quando tudo estava engatilhado para o segundo disco, o grupo acabou. É difícil conciliar as idéias de quatro pessoas. Enquanto estávamos contratados pela Secretaria, era tranqüilo, tínhamos um belo salário; mas, aí, mudou o governo e mudou todas as cadeiras também e o projeto acabou. Então, dois componentes do grupo não quiseram continuar com o grupo porque achou que ia ficar difícil, aí cada um seguiu seu rumo. Por mais que a gente quisesse substituir os dois, era difícil, porque havia muita afinidade já entre os quatro e o público dificilmente aceita uma formação diferente.</p>
<p>Depois disso fui tocar com outros artistas, fui tocar na noite, pedágio que todo músico tem que pagar e São Paulo oferece muitas oportunidades nesse ramo, quase todos os bares de lá têm música ao vivo. A Ordem dos Músicos de São Paulo é bem atuante e exige música ao vivo nos bares. Trabalhei um tempo com um grupo de música dançante que se apresentava em jantares dançantes</p>
<h4><center>Nonô e Naná</center></h4>
<p>Depois de um tempo meu pai se mudou para Pouso Alegre e eu continuei lá. Me casei em 1999. Nesse meio tempo meu grupo se desfez e eu fui trabalhar com a Sula Miranda. Trabalhei com ela durante cinco anos e meu pai vivia me chamando pra vir pra Pouso Alegre e as idéias foram amadurecendo, então resolvi vir.</p>
<h4><center>Vida profissional em Pouso Alegre</center></h4>
<p>A referência que eu tinha era meu irmão Henrique, professor do Conservatório, que já tinha vindo com meu pai pra cá. Então minha meta era o Conservatório e fui fazendo meus cálculos para esse objetivo. Comecei substituindo um professor ou outro e dando aula de percepção, depois eu dei aula de violão, como substituto também. Nessa época, o José Hélder dava aula de viola, mas quando ele recebeu uma proposta de trabalho em São Paulo, ele me indicou para substituí-lo. Fiz a Faculdade de Música em Três Corações e estou no Conservatório até hoje como professor de viola caipira.</p>
<p> Atualmente eu faço arranjos para outros artistas, faço jingles pra rádios e tudo com a ajuda da informática, que veio facilitar o trabalho do músico com novos materiais e boas informações. Também coordeno a banda do Bandeirante e Zé Batista, dou aulas particulares e no Conservatório e toco em casamentos. </p>
<h4><center>Nonô e Naná</center></h4>
<p>Meu pai é nascido em Formiga, MG e minha mãe em Divinópolis, MG. Ela sempre gostou de teatro. </p>
<p>Minha avó, mãe do meu pai, era uma pessoa muito conhecida em Formiga, MG. Ela era parteira e uma pessoa muito querida lá. O meu avô paterno era peão de boiadeiro, pegava tropa dos outros pra entregar e o contato que meu pai teve com o meio rural foi através dessa história do meu avô, um amante da música também.</p>
<p>Meu pai contava que minha avó pedia pro meu avô ir buscar uma mistura pra janta, ele saía às quatro horas da tarde e só voltava às três horas da manhã. Às vezes ela pedia pro meu pai ir buscar meu avô, ele ia e ficava também. Quando ele chegava na venda, meu avô o colocava ali na roda pra cantar junto. Antes de conhecer minha mãe, meu pai já cantava com um irmão dele e eles já tinham ido para o Rio de Janeiro e São Paulo tentar alguma coisa.</p>
<p>Certo dia a minha mãe foi pra Formiga, MG, para participar de um grupo de teatro. Eu não sei como, mas minha mãe acabou fazendo amizade com o pessoal do meu pai e se envolveu com a família dele, antes mesmo de conhecer o meu pai. Nessa época, meu pai estava em São Paulo e tinha ido passear em Formiga, MG, e conheceu minha mãe e se encantou. Ela era uma mulher lindíssima e o engraçado é que eles têm uma diferença de treze anos. E a partir daí, ele começou a ir mais a Formiga, MG, e o namoro começou. Logo se casaram e se mudaram para São Paulo.</p>
<p>A minha mãe nunca teve a pretensão de ser cantora, começaram a cantar de brincadeira. Quando meu pai ia mostrar as músicas dele para a dupla Cascatinha e Inhana, ele ensaiava antes com a minha mãe, porque era uma dupla mista também e ele levava minha mãe junto pra apresentar a música. Um dia, o Cascatinha falou pro meu pai que ele estava perdendo tempo, porque tinha uma mulher bonita e cantando bem, porque então ele não fazia uma dupla com ela. E daí passaram a ensaiar pra valer. O Cascatinha além de ter sido padrinho de casamento dos meus pais, foi também padrinho artístico, porque foi ele que levou os dois para as primeiras gravações, os primeiros programas de rádio. Ele indicou, levou e apresentou os dois. Com a dupla formada passaram a cantar pelo Brasil e fizeram muito sucesso em Goiás.</p>
<p>Nessa época, meus pais viajavam direto e eu ainda era bebê e eles me colocavam pra dormir dentro da caixa de violão. Mais tarde, ainda fazendo muitos shows, eles ficavam quinze dias fora e nós ficávamos em casa na companhia de Dona Emília, uma vizinha que olhava a gente. Eu tinha três anos e a minha irmã tinha dois, o meu irmão (Henrique Basílio) não era nascido ainda. Eles saíam pra gravar o programa da Rádio Record às cinco da manhã e deixavam a gente dormindo, trancavam toda a casa, minha mãe deixava alguma coisinha pra gente comer, ali em cima da mesa, pra não ter o risco de ligar o fogão. Mas quando viajavam, era a Dona Emília que ficava com a gente.</p>
<h4><center>A dupla em Pouso Alegre</center></h4>
<p>Depois de São Caetano (<strong><em>ABC Paulista</em></strong>), mudamos para a zona leste e lá passei a minha adolescência, daí fomos para o bairro Santa Cecília e depois eles se mudaram para Pouso Alegre. Meu pai já tinha a intenção de sair de São Paulo e ir pra Formiga, MG,  ele estava cansado da cidade grande. E aí ele começou a procurar um sítio pra comprar, mas não achou nada em Formiga, MG. Então, como ele já tinha amizade com o Luiz de Castro, que já morava em Pouso Alegre, um dia ele veio visitar a cidade e gostou. No início, ele alugou uma casa no bairro Primavera e enquanto ele morou ali, ele começou a procurar um sítio pra comprar e acabou encontrando um sítio no bairro Canta Galo e lá viveu com a minha mãe um bom tempo.</p>
<p>Profissionalmente, ele já tinha atingido, pra aquela época, o auge que se podia conseguir. Enquanto eles moravam aqui, faziam shows na região toda e na época das eleições eles fizeram muitos shows políticos em parceria com Bandeirante e Zé Batista. Então, eles saíam juntos pra fazer esses shows, mas continuou compondo também. Nessa época minha mãe já estava com problema sério de garganta e com dificuldade pra cantar, até que chegou o dia que ela não pôde mais cantar, já tinha feito três cirurgias. </p>
<p>Às vezes, vinham duplas de São Paulo procurar músicas com meu pai. Ele tinha um lado como compositor e um lado como intérprete, como compositor era Nonô Basílio, com uma infinidade de músicas gravadas e a música que o projetou foi &#8216;Mágoa de Boiadeiro&#8217;. E com a minha mãe formou a dupla Nonô e Naná, assumindo assim seu lado de intérprete. O grande sucesso da dupla é  Casa de Caboclo, de autoria do meu pai.</p>
<p>Talvez em função da sensibilidade mais apurada, compositores como meu pai e outros compositores e músicos, parece que têm um canal de comunicação com as coisas do universo. A convivência direta com a música desperta essa inspiração pra compor. Todas as emanações de pensamento, todas as idéias estão por aí, soltas no ar, e num determinado momento você capta essas coisas. Às vezes uma palavra que uma pessoa fala pra gente tem um significado diferente, ela bate no ouvido da gente de outra forma, de uma forma lírica e daí você começa a desenvolver um tema e cria uma música. Já aconteceu com meu pai muitas vezes e até comigo mesmo, de levantar de madrugada e escrever uma música. O estalo vem de repente, é um canal de sintonia com o universo. Vem um pedacinho da letra, já com a melodia junto, aí depois, num lugar mais calmo, você vai elaborar melhor, ajustar, colocar no lugar certo.</p>
<p>Quando a inspiração chegava para o meu pai, ele escrevia em qualquer papel que tivesse ali por perto. Às vezes acontecia de alguém pedir uma música pra ele, com um determinado tema, ele ficava pensando naquele tema, elaborando e desenvolvendo a música, mas não acontece sempre assim, não tem receita, não é como fazer pastel. Não existe uma rotina pra escrever, existe um hábito. Tem gente que só escreve bebendo alguma coisa ou sentado em determinado lugar da casa. Na hora que vem a inspiração você tem que escrever rapidamente, porque a impressão que dá é que se você não escrever naquela hora a ideia vai embora. Se você não colocar pelo menos duas linhas daquela ideia no papel, você não consegue dormir. E assim ele escreveu grandes sucessos e suas composições foram gravadas por Liu e Léo, Zico e Zeca, Tonico e Tinoco, Cascatinha e Inhana, Milionário e Zé Rico, Chitáozinho e Xororó, César e Paulinho, Matogrosso e Matias e muitos outros. </p>
<p>Na minha família quase todos são músicos, além de mim, o meu irmão Henrique é professor de violino no Conservatório, tenho tios e primos músicos também e agora minha irmã está freqüentando as aulas do Conservatório. Acredito que a convivência com o meio musical favorece muito. Meu pai quando ia tocar violão, eu pegava outro e ia prestando atenção no que ele fazia e eu perguntava muita coisa e ele ia me ensinando. E eu fui criado nesse ambiente e mais tarde fui trabalhar com os meus pais, fazendo arranjos para as músicas do meu pai e essa relação profissional foi muito harmoniosa, porque sempre participei ativamente da vida musical deles, viajando com eles desde pequeno. Às vezes, aconteciam algumas discussões, meu pai tinha uma opinião muito forte, mas nada grave. Nunca alteramos a voz um com o outro. Quando as opiniões não batiam a gente se retirava um pouco, depois voltava com mais calma e conversávamos sobre a melhor maneira de fazer aquele trabalho. Ele me respeitava muito pelo o que eu sabia sobre música, tinha estudado muito sobre esse assunto.</p>
<p>A maioria das músicas de Nonô e Naná era composição do meu pai, mas interpretavam outros autores também. Gravaram doze LPs, fora os de 78 rotações que foram uns quatro ou cinco. Depois teve um compacto simples, um disquinho de 45 rotações, era uma música de cada lado e às vezes duas. Fomos sustentados com a música, muitas vezes passamos dificuldades, porque nessa época não tinha cachê fixo, como hoje que o artista sai de São Paulo e vai fazer show em Pouso Alegre e já tem hotel e todas as despesas pagas e mais o cachê. Antes, não! Eles saíam de São Paulo e iam fazer show no circo em São José do Rio Preto com o acordo de cinquenta por cento do artista e cinquenta por cento do dono do circo. Se tivesse renda todos ficavam satisfeitos, se não tivesse renda cada um ia pra casa com seu prejuízo.</p>
<p>Ele tem composições inéditas, ainda não foram gravadas e estão guardadas. Recebemos direitos autorais até hoje, não é nada significativo, mas já ajuda. Se o direito autoral no Brasil fosse pago corretamente como se deve, estaríamos milionários. A música &#8216;Mágoa de Boiadeiro&#8217;, não tem como contar as regravações que já foram feitas, foi até tema de filme, estrelado por Sérgio Reis. A história do filme foi feita em cima da letra da música do meu pai e nesse filme aparecem meus pais, meu irmão, eu e minha irmã. Se esse sucesso fosse nos Estados Unidos, estaríamos milionários com apenas essa música.</p>
<p>O repertório do meu pai é grande. Deve ter por volta de mil músicas gravadas. A música dele que eu mais gosto e que eles gravaram é &#8216;Minha Riqueza&#8217;. Esta música foi inspirada na casa deles mesmo, um ambiente de carinho, muito amor e música. Eles são o nosso esteio, devo a eles minha formação musical, de caráter e de ser humano. Meu pai era um homem inteligente, acima do seu tempo, um filósofo, era uma pessoa com uma alma rica e toda semente foi plantada em nós com muito vigor e tento passar isso pros meus filhos também. Minha mãe já era mais enérgica, mas nunca apanhamos com desrespeito, ela batia com intenção de educar, às vezes naquela surra a gente chorava muito, aí à noite ela vinha, sentava com a gente e explicava o motivo daquela surra. Ela nos educou para sermos gente de bem e prontos pra viver lá fora.</p>
<p>O último CD dos meus pais foi todo produzido por mim e se chama  &#8216;A última lembrança&#8217;. O objetivo era mesmo deixar um registro pra todos. Minha mãe já estava com dificuldades para cantar e foi emocionante produzir este trabalho. Mesmo depois de pronto eu resistia em ouvir, porque com a morte do meu pai e da minha mãe, dois anos depois, eu fiquei um bom tempo sem conseguir ouvir o CD. Eu penso que quando duas pessoas convivem por muito tempo, quando um morre dificilmente o outro resiste por muito tempo.</p>
<p>Meu pai gostava de ter tudo na mão e minha mãe fazia tudo com prazer, levava o café da manhã na cama, levava o cigarro e o chinelo. Então ela se dedicava muito a ele e com a morte dele, ela ficou meio sem chão e entrou numa depressão profunda. Às vezes, ela ficava um pouco aqui em casa, às vezes no meu irmão e outras vezes com a minha irmã, mas nada substituía aquela rotina dela junto com meu pai. E com tudo isso não teve jeito, a doença dela se agravou. Às vezes a gente tinha que ser duro com ela pra tirá-la de casa e distrair um pouco, ela estava apática, não queria nada. Aqui tinha uma cadeira de balanço que ela gostava de ficar e se deixasse ela ficava horas ali sentada. Pra quem teve a vida intensa que ela teve, com shows, viagens e tudo mais, era triste vê-la daquele jeito. Ela já vinha se abalando desde quando ela não pôde mais cantar, devido à flacidez nas pregas vocais. Depois com a morte do meu pai tudo ficou difícil demais pra ela.</p>
<p><center><img src="http://www.memoriadopovo.com.br/v1/wp-content/img/barra01.png" border="0" /></center><br />
<em><strong>Odilon Baptista de Souza</strong>, 53 anos, reside no bairro Jardim Olímpico, município de Pouso Alegre, MG. Entrevista realizada em seu estúdio (em sua residência)em 12 de outubro de 2009.</em></p>
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		<title>Dona Fracinete</title>
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		<pubDate>Sat, 05 Dec 2009 04:18:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bill</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artesanato]]></category>
		<category><![CDATA[Vozes de Mestres]]></category>

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		<description><![CDATA[Artesanato]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h3><center>Dona Fracinete e a cidade adormecida </center></h3>
<p><center>Dava gosto de ver sua cidade inventada com casinhas, sobrados, chalés de todas as cores e formatos. Nas suas mãos de alquimista, o barro ganhava forma, vida. Artesã e obra se pertenciam.<br />
Dona Paula Fracinete Coutinho Balbino, 72 anos, a construtora de cidades encantadas, hoje já não esculpe mais. O barro foi secando e já não dava liga. “Perdeu a graça!” A morte de um dos cincos filhos há dois anos e os braços enfraquecidos por tantos anos de trabalho pesado na roça são suas justificativas.<br />
Sua cidade foi rareando e poucas casas ficaram. E é com este pequeno povoado que ela revive os tempos não tão distantes. No Natal, suas casinhas acordam e se enchem de luzes para receber o Menino Jesus e todos os seres que acreditam que ainda há esperança.<br />
</center><br />
“Nasci ali no bairro da Cava, município de Pouso Alegre. Minha mãe era dali, meus avós era dali. E aí depois meu pai não tinha casa para morar, sempre morando de empregado, ia para um lado, ia para outro e nóis junto com ele. Aí depois que eu casei é que vim para cá. </p>
<p>Nossa infância era trabalhar (<strong><em>risos</em></strong>), era torrar farinha, ajudar na roça, tudo que a gente fazia era isto aí. Nós somos nove irmão, seis mulher e três homem. Nós não tinha tempo de brincar. Minha mãe, às vezes, fazia umas bonequinha de pano pra gente brincar. Naquele tempo não sei se ela não podia comprar ou se não tinha. Minha infância foi boa, apesar de ser pesada por causa do trabalho, porque os pais eram muito bão, dava muito carinho, então a gente se sentia feliz. Era pobre, mas tinha todo amor do mundo. </p>
<p>Estudei até o segundo ano em escola de Congonhal e depois nós voltemos para as banda dos Chaves (<strong>bairro rural de Pouso Alegre</strong>). Estudei numa escolinha perto do Fernandão, a professora era Dona Filó&#8230; Aprendemo pouco.</p>
<h4><center>Do barro, uma cidade</center></h4>
<p>Casei com vinte anos. Artesanato foi de bastante tempo que comecei. Meu marido fazia tijolo. Fazia o serviço aqui, ia pra lá ajudar ele, levá almoço, aí pegava o barro e ficava mexendo. Aí comecei a fazê bichinhos, depois casinha. Minha mãe já fazia estas coisas também. Ela montou um presépio uma vez, tudo feito de argila. Foi com ela que aprendi. Aí depois começou a sair televisão, aí eu olhava nas casas da televisão e tirava os modelinhos e fazia. Quando ia na cidade (<strong>Pouso Alegre</strong>) também tirava modelo. Nunca tive ajudante.<br />
Pra fazê casinha, o barro tem que ter liga, era barro que fazia tijolo.<br />
Foi a Marilda da Emater, não lembro o ano, que viu que minhas casinha tinha valor. Teve uma festa na venda verde (<strong>venda do Hélio</strong>) e ela implorou para eu levá minhas casinha. Eu não queria ir e no fim acabei indo. Ela me ajudou muito; tenho saudade dela.<br />
Ela arrumou pra mim vendê lá na feirinha em frente à catedral. Tinha umas colegas minha que expunha lá e aí eu vendia minhas casinha. O povo dava muito valor nas casinha. Era pouquinho, quase não tinha tempo de fazê. A gente tem muito serviço. Se eu tivesse tempo de fazê só casinha, aí dava. Fiz muitas casinhas, aí o povo vinha também e encomendava. Vendia tudo baratinho. Um real, dois real&#8230;<br />
Renda dava pouquinho, mas a gente espairecia com aquilo. Quando tava fazendo casinha, ficava com a ideia só naquilo ali&#8230; Minha filha era que pintava para mim&#8230;</p>
<h4><center>O tombo </center></h4>
<p>História engraçada? (<strong>risos</strong>). Lembro um dia que estava levando as casinhas pra vendê, caí um tombo e quebrei todas as casinha, não aproveitei nem o barro, pois era barro queimado.<br />
Se eu já fiz uma casinha que tive vontade de morar nela? Já. Se pudesse, era bem gostoso. Mas já fiz uma casinha que já morei nela, era outra casa, desmanchou&#8230;</p>
<h4><center>Cansaço</center></h4>
<p>Hoje o braço tá cansado. Começo a fazê e canso, e depois que meu filho morreu também (<strong>faz dois anos</strong>), perdeu a graça&#8230; Morreu com 48 anos, muito novo, foi embora muito cedo. Morreu meu pai, morreu minha mãe&#8230; as pessoas querida, a gente faz de conta que nada, mas vai acabando&#8230;.</p>
<p>Se pudesse voltar no tempo, eu fazia tudo que já gostava de fazê&#8230; Quando olho para as casinha que ficaram, sinto feliz. Todo ano monto o presépio com as casinha, coloquei pisca-pisca dentro delas, fica bonitinho&#8230;<br />
<center><img src="http://www.memoriadopovo.com.br/v1/wp-content/img/barra01.png" border="0" /></center><br />
<em><strong>Paula Fracinete Coutinho Balbino</strong>, 72 anos, reside no Sítio Irmãos Balbino, no bairro dos Afonsos, onde concedeu-nos esta entrevista, realizada em 29 de agosto de 2009. </em></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Magda</title>
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		<pubDate>Tue, 01 Dec 2009 02:00:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bill</dc:creator>
				<category><![CDATA[Religião, Rituais e Festas Religiosas]]></category>
		<category><![CDATA[Vozes de Mestres]]></category>

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		<description><![CDATA[Festas e rituais]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h3><center>Magda, a filha do Zé Raimundo da Congada</center></h3>
<p><center><object width="500" height="405"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/MWYZ1YHDjZo&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;rel=0&#038;color1=0x234900&#038;color2=0x4e9e00&#038;border=1"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/MWYZ1YHDjZo&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;rel=0&#038;color1=0x234900&#038;color2=0x4e9e00&#038;border=1" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="500" height="405"></embed></object></center><br />
<center>Ela é bonita, ousada e filha do Zé Raimundo, o Zé Raimundo da Congada de Silvianópolis. Desde pequenina, os sons de batuque, os estandartes e muita dança permeiam seu universo. Dança nos pés, na alma e no jeito moleca de ser. Hoje, aos 25 anos, prestes a receber o diploma universitário de administração de empresas, Magda delineia seu futuro: investir na congada com uma visão empreendedora. E, se depender dela, a continuidade da tradição está garantida, pois sua primogênita está para chegar.</center></p>
<h4><center>Eu na congada</center></h4>
<p>Eu cheguei em Silvianópolis em janeiro de 87; era bem pequena, lembro muito pouco. Eu morava em Santa Rita do Sapucaí e meu pai morava aqui. Lembro da primeira Festa do Rosário de Silvianópolis, a congada de meu pai já participava, mas minha mãe não. E eu já queria ir atrás do terno de congo e minha mãe me deixou por conta deles. Na época, tinha uma bandeireira, dona Maria, que hoje é falecida, falou: deixa a menininha aqui. Eu era a menor de todas.</p>
<p>Fui crescendo no meio da congada, aprendi muita coisa, conheci muita gente. A congada de meu pai dançava muito fora com a turma de Lambari, Machado e outras&#8230; e eu acompanhava muito ele. Conversava muito com as pessoas, desde as pessoas que estavam na rua até as mais importantes. Meu pai acabava inspirando aqueles diálogos.<br />
Onde eu chegava, as pessoas falavam: é a filha do Zé Raimundo da Congada. Só depois perguntavam qual é o nome da filha do Zé Raimundo da Congada.</p>
<p>(&#8230;)</p>
<p>Na congada, nós somos em torno de 18 meninas. Às vezes, os meninos não querem ensaiar a bateria. A gente fala: não tem problema, a gente canta, toca&#8230; Meu pai pega um tarol, as meninas pegam a caixa de guerra, o surdo e a gente faz aquele som, escolhe as músicas. Às vezes a gente ensaia uma música que a gente vê na televisão, na TV Futura, algo assim. Aprende a música, nem que seja pela metade, o resto a gente cria.</p>
<p>(&#8230;)</p>
<h4><center>Lembrança marcante</center></h4>
<p>Lembro-me da segunda vez que a congada de meu pai foi dançar em Aparecida do Norte. Eu nunca tinha visto tanto terno de congada na minha vida, num lugar só. Aquilo lá foi minha paixão. Eu fiquei tão louca, eufórica, de ver tanta congada. Eu lembro até hoje: saí correndo e caí um tombo e dei uma pancada no joelho. Deus me mandou um fisioterapeuta, que estava bem do meu lado. Minha mãe me pegou no colo e ele falou: coloca a menina sentada que eu vou ajudar a senhora, eu sou fisioterapeuta. Eu lembro certinho, ele mexeu no meu joelho que tinha saído do lugar e me alongou. Eu fiquei com um pouco de dor. Ele me perguntou: o que você quer fazer agora? Eu disse: quero ver a congada! Ele me colocou no pescoço dele, aí eu consegui ver por cima de todo mundo e eu era bem pequenina&#8230;</p>
<p>Naquele dia me encantei com uma congada que estava passando no fundo de vermelho e branco. Eu encabulei tanto com aquela roupa e disse que enquanto eu não colocar o uniforme vermelho na congada de meu pai, eu não vou sossegar. Meu pai já tinha tido uniforme vermelho, mas eu nunca cheguei a dançar com este uniforme. Naquela época era amarelo.</p>
<p>Depois de tantos anos, em 2008 conseguimos colocar o uniforme vermelho e branco. Um rapaz do Rio de Janeiro nos deu 60 metros de cetim do vermelho mais chamativo, do jeito que eu havia visto na congada de Aparecida do Norte.<br />
Contato: magdaviana23@yahoo.com.br<br />
<strong>ex-festeiro da Festa do Rosário, reside em São Bernardo do Campo, SP</strong></em>), esteve aqui e perguntou o que a gente estava precisando. Eu comentei com ela a respeito do chapéu. E na festa, ela trouxe bonés com a parte de cima branca e o bico vermelho, combinando com a roupa que ganhamos. Na Festa do Rosário, na hora que o terno apontou no início do morro, todo mundo olhou e perguntou: de onde que surgiu aquele terno de congo de vermelho? Não tinha nenhuma outra congada com esta cor, só a gente. </p>
<p>(&#8230;)</p>
<h4><center>Tá caindo flor</center></h4>
<p>A minha paixão é participarmos de novo da Festa de São Benedito em Aparecida do Norte. É em abril. Lá eles servem alimentação, mas o transporte é por nossa conta.<br />
No ano passado nós fomos. Chegamos lá de manhã. Para nós, os ternos de congo que estavam lá eram os diferentes, e para eles, nós que éramos os diferentes. Nós éramos a única congada, no meio de 105, que tinha instrumento de sopro. Era a única congada que tinha homem e mulher. As outras congadas ou era só de homem ou era só de mulher. Não tinha aquela mistura.</p>
<p>Chamamos atenção sem querer chamar por causa de uma música que o sô Felipe cantava aqui &#8230; e esta música acabou espalhando pelo Brasil e nós não sabíamos que fazia parte do coral da igreja de Aparecida. Nós começamos a cantar, o coral começou a ajudar. (Você canta esta música toda vez que chega num lugar e você acha que o lugar está lindo):<br />
<span style="font-family:'Comic Sans MS', cursive; text-align:left;"><br />
<strong>Tá caindo flor&#8230;<br />
tá caindo flor&#8230;<br />
tá caindo flor&#8230;<br />
tá caindo flor&#8230;<br />
vem do céu,<br />
cai na terra<br />
vem Lelê<br />
tá caindo flor&#8230;</strong><br />
</span><br />
A gente cantava e fazia gesto e o coral também. A gente fazia o refrão, o coral, os versos. Foi uma coisa maravilhosa pra gente e marcou muito.</p>
<p>(&#8230;.) </p>
<p>Em 2010, nós iremos novamente; a gente já está preparando. O pouquinho que entra de cada festa, meu pai já está guardando.</p>
<h4><center>Meu pai, meu guia</center></h4>
<p>Tenho muito orgulho de meu pai. Na congada ele é chamado de mestre, capitão. Para a minha vida, ele é a mesma coisa, o mestre, o capitão, o que me guia, o que me ensina. Tudo que eu sei de congada, eu aprendi com ele. Ele sempre foi muito curioso e acabou despertando esta curiosidade em mim&#8230; As dificuldades que eu presenciei foram poucas, em comparação com as que ele viveu no passado. Com certeza, darei continuidade, continuarei o trabalho que ele iniciou.<br />
<center><img src="http://www.memoriadopovo.com.br/v1/wp-content/img/barra01.png" border="0" /></center><br />
<em><strong>Magda Leonel Viana</strong> reside em Silvianópolis, MG.<br />
Entrevista realizada na residência do seu pai em 4 de outubro de 2009.<br />
Contato: magdaviana23@yahoo.com.br<br />
</em></p>
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		<title>Zé Brasileu</title>
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		<pubDate>Tue, 01 Dec 2009 01:59:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bill</dc:creator>
				<category><![CDATA[Religião, Rituais e Festas Religiosas]]></category>
		<category><![CDATA[Vozes de Mestres]]></category>

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		<description><![CDATA[Festas e rituais]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h3><center>Zé Brasileu, ‘Memórias de um folião de reis’</center></h3>
<p><center><object width="500" height="405"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/ZLGgzflbzz8&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;rel=0&#038;color1=0x234900&#038;color2=0x4e9e00&#038;border=1"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/ZLGgzflbzz8&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;rel=0&#038;color1=0x234900&#038;color2=0x4e9e00&#038;border=1" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="500" height="405"></embed></object></center><br />
<center>A vida do senhor Zé Brasileu era só contentamento, quando o neto Rafael, hoje secretário de Cultura de Pouso Alegre, fez-lhe uma proposta: contar sua vida de folião de reis em um livro.<br />
Durante dois anos, ele buscou em seus guardados na memória, consultou seus companheiros, alinhavou as ideias e em 2005 publicou ‘Memória de um folião de reis’ (com patrocínio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Pouso Alegre), onde ele conta sua trajetória de folião, abre espaço pra seus companheiros e apresenta as músicas executadas nos rituais.<br />
Hoje, aos 82 anos, ele continua na ativa, repassando seus conhecimentos e participando da Folia.<br />
Afinal, quem é fato um folião autêntico, é folião para a vida inteira.</center></p>
<p>Sou do dia 22 de novembro de 1927. Nascido e criado no bairro do Picadô, em Silvianópolis.<br />
Tenho pouca leitura, só aprendi a quarta série, com muita dificuldade. Precisava andar 5 km de casa até a escola no bairro do Santo Amaro. Então, consegui aprender um pouquinho e que tanto me serviu e tem me servido. Até a idade de 33 anos morei no Picadô, depois mudei para Silvianópolis, morei mais 14 anos lá e depois que vim para Pouso Alegre. Aqui já tô com 34 anos.</p>
<h4><center> Vestir a farda aos 17 anos</center></h4>
<p>Eu acompanho folia de reis desde os dez anos de idade. Meu pai também gostava, então ele saia, eu saia com ele. Tinha muita inclinação, gostava demais. Com 13 anos, eu já era folião. Puseram eu para tocar uma caixa. Dei certo naquela posição. Fui tocando caixa até a idade de 14, 15 anos. Depois eu peguei a tocar viola e comecei a cantar 5 vozes, 6 vozes. Com 17 anos, aí eu já comecei a vestir a farda. Muitos falam bastião, outros palhaço, outros marujo. Nós falamo palhaço. A folia, também fala companhia, mas o nome certo que está no meu livro é folia de Santos Reis. Então, a gente vem vindo cantando e vestindo de palhaço.</p>
<p>Lá no Picadô tinha uma folia, nos bairros vizinhos também tinha, no Sítio tinha duas, no Santo Amaro, na fazenda do Antônio Palma. Todo lado tinha. Foi acabando o povo, o povo foi mudando por motivo de serviço. No Picadô hoje não tem quase ninguém. </p>
<p>Meu primeiro mestre foi o Zé Mizael Coutinho, o segundo foi Messia Varisto, depois o Geraldo Alves do Picadô, com quem aprendi mais. Ele tinha um primo que o sogro dele era o Chico Cafureti, o melhor folião do sul de Minas. Ele não era bom pra cantar, mas tinha todo o livro do fundamento. Eu peguei uma cópia, onde comecei a aprender. Acabei de aprender com o livro que eu ganhei agora, é o livro que mais ensina.<br />
Lá no Picadô, nos saía dia 25 de dezembro e chegava no dia 5 de janeiro. A comida pra companhia nós pedia nas casas, tinha casa preparada todo o ano. Na casa do meu pai deu muitas comida. Lá em casa também, toda folia que passava, dava comida. Onde posava a bandeira, posava algum folião. Os que morava mais perto vinham dormir em casa. No outro dia, tirava tarefa e pegava na folia meio dia, uma hora e ia até meia noite. Hoje por motivo das pessoas estar trabalhando, mudaram tudo pra cidade, é empregado. Então, só pode cantar fim de semana. </p>
<p>Todos os folião tem um detalhe, tem uma posição, tem um ou outro que tem peito melhor, canta melhor, tem um que toca melhor. Mas todo folião, que é devoto de Santo Reis, para mim são todos iguais.Não tem um melhor que o outro. O livro estuda, mas o talento, o modo de pensar, o modo do folião agir é diferente. Cada um age de uma maneira. Você pode por aí cinquenta folião, ninguém bate igual. </p>
<h4><center>O que faz um palhaço ou bastião? </center></h4>
<p>O palhaço é o guarda da bandeira. Ele tem três detalhes de posição. Quando ele sai com a folia pra visitar os devotos, ele é o guarda da bandeira, é o que põe respeito na companhia.<br />
Quando chega no presépio os dois palhaços fazem o outro papel de duas pessoas: Arábio e Agabe. Agabe era pretendente de Maria, queria casar com Maria, antes dela assumir compromisso com José. O outro era viajante, transportava mercadoria de um país para outro. Os dois se encontraram e foram visitá o Menino Jesus, mas nesta hora Nossa Senhora tinha tirado o Menino da manjedoura para acompanhar os três Reis Magos até a saída da lapinha. Então, eles não encontraram Jesus, beijaram a palha e ficaram abençoados.  É por isto que em algumas folias, os palhaços não beijam o Menino Jesus. Na nossa, beija. </p>
<p>O palhaço, que comanda a companhia. Quando chega numa casa, o dono da casa vem encontrar.<br />
O palhaço fala:<br />
<span style="font-family:'Comic Sans MS', cursive; text-align:left;"><br />
<strong>- Com licença, patrão!<br />
- Pode chegar, palhaço!<br />
- Ah, patrão, saímos pra viajar com esta bandeira que é de nossa tradição sagrada. Nós queremos saber se é do desejo do senhor receber nossa bandeira e os folião?<br />
Se o dono da casa for devoto, diz:<br />
- Entra pra dentro, palhaço! Vamos cantar!<br />
Esta é a função que o palhaço faz. Aí o palhaço pede esmola:<br />
- Estamos fazendo uma festa e dependemos das pessoas devota. Queremos ajuda do senhor pra nós festejar Santo Reis. Pode ser da boa vontade do senhor, pode ser uma prenda, pode ser dinheiro, pode um garote, uma leitoa. O senhor é que manda, patrão! </strong><br />
</span</p>
<p>Cada oferta que o dono da casa dá, o palhaço marca num papel e vai marcando. No livro fala que o palhaço tem direito de pedir esmola só duas vezes, depois é a vontade do patrão.  O palhaço faz brincadeiras, pula, dança. Antigamente era para as pessoa não conhecer., era um segredo. Hoje não é segredo. </p>
<p>O certo da folia é 12 pessoas. Não importa o número de acompanhantes, pode ter reserva também.<br />
São: um bandeireiro, o caixeiro. Esses não cantam. Na cantoria é o mestre, o contramestre, o contrato, a quarta voz, a quinta voz, a sétima voz e o sanfoneiro e os dois palhaços.</p>
<p>Até agora participo da folia de reis, quando farta um palhaço, um contamestre. Na frente, eu não canto mais. Porque tem muitos que cantam na frente, mas pra vestir de palhaço ainda não tem.<br />
Os novos não tão querendo esta parte. Numa folia de reisé difícil ver um, dois jovens, o resto é tudo velho.<br />
Eu participo da folia que me chama, participo mais da dos Fernandes (bairro de Silvianópolis), que ta no livro que escrevi. Tem mais colega que começamos juntos.<br />
Já ensinei muita gente. Rafael( seu neto e atual secretário de Cultura de pouso Alegre) é do meu coração. Dá umas orientação que a gente as vezes não teve. Eu passo muita coisa pra ele, que é estudado. Ele sabe receber as coisas que a gente fala. </p>
<h4><center>Folia de ontem, folia de hoje</center></h4>
<p>Parece que não mudou nada.O que mudou foi que de primeiro tinha muita rapaziada nova, hoje quase não tem. Então, nós vamos fazer esta entrevista, o livro como eu fiz e esparramei pra vê se a gente põe tudo no lugar outra vez, senão acaba, não pode acabar. </p>
<p>É uma tradição deixada por Deus. Deus enviou seu filho pra salvar o mundo. Os três reis magos tinham o desejo de adorar Jesus, estudaram o livro sagrado e esperavam que Jesus vinha pra salvar o povo. Eles tinham aquele desejo e Deus deu poder para eles. Chamou eles, avisados por uma estrela e eles acompanharam aquela estrela e foram ver Jesus. Eles levaram grandes presentes. Aí os peregrinos fizeram a companhia de reis. E o presépio também é a semelhança do nascimento que chega na noite de natal e vai até 6 de janeiro, época que os três reis viajaram. Nós fizemos esta semelhança para imitar os três reis, a folia de reis, inventada pelos peregrinos. Os próprios peregrinos trouxeram o cativeiro. Os donos de fazenda eram muitos religiosos e davam quinze dias de férias para fazer a festa. Eles cantavam, eles não tinham leitura, não escreveram nada. Quem escreveu foi o patrão deles.<br />
Depois com os pesquisadores, embaixadores foram fazendo sua opinião. Eu mesmo fiz a minha opinião neste livro. </p>
<p>O palhaço no presépio ajoelha e diz:<br />
<strong><span style="font-family:'Comic Sans MS', cursive; text-align:left;"><br />
Aqui está este presépio<br />
semelhança do nascimento<br />
porque é da obrigação do embaixador<br />
contar os fundamento.</p>
<p>O aviso foi pelo anjo<br />
que desceu em Nazaré<br />
foi avisá a Virgem Maria<br />
esposa de São José. </p>
<p>Maria, muito assustada.<br />
pra ela, o anjo falou<br />
você foi a escolhida<br />
Pra ser mãe do Salvador. </p>
<p>(&#8230;)</p>
<p>Foi em 25 de março<br />
Que Maria concebeu<br />
25 de dezembro<br />
o Menino nasceu.</p>
<p>(&#8230;)<br />
</span></strong><br />
Se eu tenho saudade daquela época? (<strong><em>muita emoção</em></strong>). Para mim até representa num sonho tudo aquilo que passou, porque a gente era mais novo, tinha mais saúde, escutava melhor, falava melhor, cantava melhor. Tudo é bom, quando é mais novo. </p>
<p><em><center><img src="http://www.memoriadopovo.com.br/v1/wp-content/img/barra01.png" border="0" /></center><br />
<strong>José Cecílio de Camargo</strong>, conhecido por Zé Brasileu, reside no bairro Nossa Senhora Aparecida, em Pouso Alegre, MG.<br />
Entrevista realizada em 7 de setembro de 2009. </em></p>
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		<item>
		<title>Borginho</title>
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		<pubDate>Tue, 01 Dec 2009 01:59:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bill</dc:creator>
				<category><![CDATA[Música, Canto e Dança]]></category>
		<category><![CDATA[Vozes de Mestres]]></category>

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		<description><![CDATA[Festas e rituais]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h3><center>Borginho, seguidor de um cortejo de fé e cantoria</center></h3>
<p><center><object width="500" height="405"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/JUK5cxgcs2w&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;rel=0&#038;color1=0x234900&#038;color2=0x4e9e00&#038;border=1"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/JUK5cxgcs2w&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;rel=0&#038;color1=0x234900&#038;color2=0x4e9e00&#038;border=1" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="500" height="405"></embed></object></center><br />
<center>O uso da voz é para cantar os cantos sagrados, fala pouco.<br />
Na quaresma, Borginho se junta aos companheiros de reza e à matraca e saem em peregrinação pelas casas do seu lugarejo, onde a cantoria é a grande convidada.<br />
Aprendeu a Recomendação das Almas ainda criança e pede a Deus mais cem anos de vida para prosseguir em sua caminhada de fé.<br />
</center><br />
Nasci no dia 13 de agosto de 1933, aqui no Pantano São José. Minha infância era só trabaiá na roça. Não tinha otra coisa pra fazê, não tinha escola, só ia pra roça. Aí, quando peguei treze ano de idade, tinha essa reza que saía por aí rezano. Eu acompanhei umas duas ou treis semana e logo já aprendi. </p>
<p>Naquele tempo a gente escutava uma moda de viola, depois cantava junto e guardava na lembrança e com essa reza foi a mema coisa, saí um poquinho com o rezadô e comecei a rezá essa e aquela e logo aprendi. </p>
<p>A Recomendação das Almas nóis reza nas casa da pessoa, na quaresma. A gente coloca uma toaia branca na cabeça e vai uma matraca na frente acompanho os rezadô. </p>
<p>Daquele grupo antigo só tem eu agora e a reza não mudô nada, é do memo jeito que eu aprendi. O grupo tá diminuino, antes tinha uns doze, agora só tem uns oito. Tem gente que fala que qué aprendê, mais se não tivé vontade e cabeça firme pra aprendê, não segue em frente não. Esse nosso grupo é assim, leitura nóis não tem, mais cabeça boa pra rezá, todo mundo tem. </p>
<p>Peço a Deus pelo menos mais uns cem ano pra mim e pros meus companhero, pra continuá rezano essas excelência. </p>
<p><center><img src="http://www.memoriadopovo.com.br/v1/wp-content/img/barra01.png" border="0" /></center><br />
<em><strong>Benedito Francisco Pereira</strong> (Borginho), 76 anos, reside no bairro Pantano São José, município de Pouso Alegre, MG. Entrevista realizada no dia 6 de setembro de 2009.</em></p>
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		<title>Zete</title>
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		<pubDate>Tue, 01 Dec 2009 01:58:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bill</dc:creator>
				<category><![CDATA[Religião, Rituais e Festas Religiosas]]></category>
		<category><![CDATA[Vozes de Mestres]]></category>

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		<description><![CDATA[Festas e rituais]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h3><center>Zete da ‘Recomenda’, aprendizado compartilhado </center></h3>
<p><center>Voz pausada e didática, gestos moderados, Zete fala sobre a Recomendação das Almas e do Terço Cantado, rituais religiosos realizados no distrito do Pantano São José e redondezas. Para ele, a manutenção destas celebrações é uma missão, um ato de fé, que desempenha com disciplina e dedicação. E quando o assunto é a continuidade da tradição, filosofa: “Já disse anteriormente, o que que falta: o pessoal não estão preocupados com as nascentes, com nossas florestas, com o reflorestamento? Nós também somos uma floresta, estamos só mantendo com as árvores mais velhas. Cadê o reflorestamento? Tudo funciona desta forma. Nós também precisamos urgente de um reflorestamento”.</center></p>
<h4><center>Sou de família da Recomenda</center></h4>
<p>Sou conhecido por Zeti. Sou integrante do Grupo Recomenda das Almas e do Grupo de Terço Cantado. Sou nascido e criado aqui, em São José do Pantano. Tive uma participação de escola até o quarto ano primário. Com o decorrer do tempo, eu sempre gostei das participações dos grupos folclóricos que tinha e que nós estamos mantendo. Sou de família da Recomenda. Na quaresma, o pessoal rezava na casa em que me criei, que é do meu avô. Eu sentia emoção quando via o pessoal rezá. Eu dizia: Meu Deus do céu, será que um dia eu vou poder fazer parte deste grupo? E, sim, graças a Deus! Deus me deu saúde, me deu poder de poder de participar junto com meus companheiros, que hoje estamos restando nós na região. Aqui já teve bastante grupo de rezadô. Se Deus quiser é de haver ampliação, deverá surgir vários jovens para integrar o nosso grupo para que este grupo permaneça para muitos e muitos anos. É este o meu objetivo, é este o meu desejo. E assim, o que puder, eu coloco à disposição do pessoal que se interessar a fazer parte deste grupo. Não sei ensinar ninguém, mas sinto muito feliz em dividir aquilo que aprendi.</p>
<h4><center>A ‘Recomenda’ em detalhes </center></h4>
<p>E assim o tempo foi passando, tive a felicidade de fazer parte deste grupo com 12 anos. Tive a felicidade de contar com meus familiares, que já eram integrantes do grupo mais antigo que tinha aqui, fui muito bem acolhido. Tive a oportunidade, agarrei a oportunidade. Não é fácil não, mas não é impossível. Tive muita disposição, igual eu tenho até hoje, para fazer frequência naquele grupo. Não sou chefe de nada, igual algum coloca. Nada mais que nenhum deles, sim, tenho muita dedicação e sinto muita satisfação em participar deste grupo. </p>
<p>A Recomenda é feita aqui no distrito. Com a modernização, está diminuindo o espaço da gente. Tem as normas a seguir. Por exemplo, não pode rezar numa casa com a luz acesa. Quando a gente começou, naquele tempo o movimento de carro era muito pequeno, hoje é muito grande. A gente tem que compartilhá com determinadas mudanças. A gente correu várias vezes pro pessoal do carro não vê os rezadô. Hoje é o contrário, nós usa o carro para poder fazer os trabalhos. Tem coisa que muda tanto que temos que aceitá. As mudanças, tem coisa que não tem como mudá, outras sim. Por exemplo, nos casos das iluminações. A gente tinha dificuldade no caso do capelão. Na época que a gente começou, o capelão tinha que ter muitas memorização para ficar gravada a programação tudo de mente. Não adiantava levar escrito, pois não tinha como ler, não tinha iluminação. Eu cheguei a participar de vários trabalhos, que nas casas nenhuma tinha energia elétrica, hoje não tem uma que não tem. </p>
<p>Então a evolução foi tanta, dentro de 20, 30 anos. A gente saía mais cedo para fazer os trabalhos, tinha estas condições. Hoje é mais difícil, os movimentos duram até mais tarde. Não tem horário determinado, a gente faz em horário que tem menos movimento. Com estas mudanças, o grupo está bem mais fraco, não está tendo reposição. Então, a gente está fazendo ultimamente um pouco mais cedo, lógico não se pode nem comparar com o tamanho do trabalho que a gente fazia com o tamanho que estamos fazendo hoje. </p>
<p>A gente tá fazendo com muita dificuldade, porque temos esta missão que Deus deu pra gente. E a saúde, já não somos tão jovens mais. Eu rezava a semana inteira, rezava noite inteira, saía do portão do cemitério (o final da Recomenda é terminada aqui no portão do cemitério), saía daqui no amanhecer o dia. Hoje a gente reza duas ou três horas, já não está agüentando mais. O que eu espero, o que o grupo também espera é que surja novos rezadô para integrar o nosso grupo para dar continuidade ao nosso trabalho por muito tempo, mas se não tiver reposição vai acabá, que nós não somo eterno. </p>
<p>Na quaresma, a Recomenda no nosso lugar é tratado assim: se começou na quarta-feira ou na sexta-feira, depois no decorrer na quaresma pode ser feito, menos começar no sábado, pode começar de segunda à sexta. Terminar, nós terminava no Sábado Santo, nós rezava a sexta-feira, a noite inteira. Na época, que eu era mais jovem e participava, sabe como é que eu imaginava? O dia, a data, só começava quando clareava o dia. A gente falava pra nós enquanto tiver de noite é sexta-feira, mas já era no sábado.<br />
Aqui tinha bastante rezadô, então revezava, rezava mais vezes na quaresma. Por causa da dificuldade que temos, rezamos na semana santa: dois, três dias, talvez a semana toda. Mas duas, três horas por dia para não deixar esta tradição acabar, por farta de elemento do grupo.</p>
<p>Nós não selecionamos as casa, tem casa que fica mais fácil do trajeto dos rezadô. Tem um número de casa, só não pode terminar em número par. Esta é uma forma que a gente encontrou, não sei o porquê, mas pretendemos deixar desta forma, da forma que a gente encontrou. Antigamente, o trajeto era feito a pé, em silêncio. A gente andava era pelos trilhos dos pastos, desta forma que era conduzido. Hoje melhorou mais, hoje tem mais acesso, anda de carro. Quando a gente chegava nas casas, o pessoal apagava a luz. Prevalece assim até hoje. Hoje, muitas vezes a gente é convidada pra rezar, para muitos é surpresa. A gente vai num setor pra favorecer o trabalho da equipe. Às vezes, ele não sabe ou fica sabendo, ouve o canto: lá tá o grupo de rezadô, será que ele não vem aqui em casa? Às vezes, porque o canto é muito alto. Às vezes, tem lugar que faz programação antes, a maioria sempre era surpresa. A gente sai pra rezar nas cruz, não pode pular as cruzes. No momento que tem uma cruz, ali tem um acontecido, é uma marca. Geralmente a gente não pula, na trajetória a pé, jamais a gente deixa uma cruz sem rezar. Mas hoje a gente tá andando de carro. </p>
<p>Se a gente souber de gente que pouco importa com a Recomenda, a gente também não vai. A gente faz de gosto, a gente quer que seja feito de gosto do outro também. Tem as variedades. Tem aquelas casa que a gente encontra fechada e permanece fechada durante o nosso trabalho. Tem aquelas outras também, que assim que a gente termina o trabalho, abre a porta da casa, convida pra entrar para dentro, oferece assim, um café, a gente aceita. Funciona tudo desta forma. Tem a satisfação da gente conversar um pouquinho, das crianças mais pequenas ver a matraca. Isto não quer dizer que não é bem aceito naquela casa, isto é critério do morador. A nossa satisfação é de saber que a pessoa está satisfeita da gente rezá na casa dele. </p>
<p>Eu aprendi muitas rezas nos trajetos a pé, do intervalo de uma casa e outra. Às vezes é difícil pro grupo se reunir. Eu, que tinha e tenho curiosidade de aprendê canto até hoje, pretendo aprendê muitos cantos ainda. Aquele cantos, que interessava mais, chegava naquela pessoa que sabia: me ensina aquele canto pra mim. Vamo cantando baixinho. Quando às vezes passava despercebido, tava alterando a altura do canto, o outro lá na frente dizia: estão cantando muito alto, manera! A gente baixava. Eu aprendi muitos cantos pelos caminhos, no meio da estrada, pelo meio do mato. Era assim.</p>
<p>Pra fazer os trabalhos, o que é necessário, o que é indispensável é uma toalha branca, de resto poderá ter um uniforme ou não. A gente nunca pensamo em ser obrigatório. A toalha é o seguinte, ela pode até atrapalhar na cabeça, a audição, quem acha que atrapalha, usa no pescoço. </p>
<h4><center>Filosofando</center></h4>
<p>Eu não tenho nada pra ensinar, compartilho um pouquinho que tenho que tenho com aquele que quer aprender alguma coisinha. De minha parte, é o maior prazer. Já disse anteriormente, o que falta: o pessoal não estão preocupados com as nascentes, com nossas florestas, com o reflorestamento? Nós também somos uma floresta, estamos só mantendo com as árvores mais velhas. Cadê o reflorestamento? Tudo funciona desta forma. Nós também precisamos urgente de um reflorestamento. </p>
<p>Olha, minha entrevista que tive, já deve fazer uns dez anos, já disse isto daí: a minha preocupação é no amanhã, hoje e amanhã, no reflorestamento. Cadê os jovens? Por que quando eu entrei, eu tinha doze anos. Depois que eu entrei, não formou um sequer rezadô. Eu acho que já passou bem mais de cem no nosso grupo, que dispôs a fazer o trabalho, ainda não saiu um rezadô. Então, eu não posso dizer se amanhã terá dois ou dez grupos aqui. Eu disse, que eu fiquei emocionado, quando eu vi a primeira vez o pessoal rezando na minha casa. Eu queria ter esta emoção novamente. De amanhã eu não poder rezar, uma hora as pernas não vai me dar condições, mas eu queria ouvir os rezadô rezar na minha casa. Este é o meu objetivo maior. Eu espero isto acontecer.</p>
<h4><center>Terço Cantado</center></h4>
<p>Agora o terço cantado surgiu depois, no dia 12 de outubro em 1996. E começou por acaso. Dia de Nossa Senhora de Aparecida, que ela veio nos guiar e dando força para a gente poder manter. A Recomenda a gente faz de ano em ano, agora o terço é nas casas de famílias, é nas igrejas, estamos feito bastante, é o ano todo.  Tenho dificuldade de conduzir, o grupo é pequeno, não é fácil, mas enfim, de acordo com nossa capacidade e possibilidade e a gente vem conduzindo. De lá pra cá expandiu muito. A gente fica muito satisfeito de participar junto com o pessoal, de ter sido aceito muito bem tanto aqui na nossa comunidade como nas comunidades vizinhas. Isto aí entrou nas igrejas, fazemos parte das igrejas. Temo um companheiro da gente que participava do terço cantado de outra comunidade, ele trouxe pra gente alguns detalhes, algumas orações. Mas eu não cheguei a fazer parte de lugar nenhum que tinha outro terço cantado.</p>
<p>Sim, pegamos um perfil, criamos normas para poder fazer este terço cantado. E com o decorrer do tempo, graças a Deus, junto com meus companheiro, a gente criou certas partes do terço cantado e amontamos este terço e vem fazendo a exibição dele, o qual vem tendo uma aceitação muito boa. O nome do nosso companheiro é José Isaias Pereira, mora no bairro Maçaranduba. Deus iluminou a vinda dele aqui, porque, talvez se ele não vem, talvez nem o grupo estava funcionando mais por falta de elemento.</p>
<p>O terço cantado, por exemplo, em determinado lugar que a gente vai, a gente não pode exibir ele completo, por questão do grupo ser em quantidade pequena, Às vezes não dá o suporte necessário que eu acho que precisa ter. Por exemplo, eu precisava ter um companheiro que ajudasse eu conduzir o terço cantado. Na verdade hoje não está tendo, estou sendo o condutor. Uma das coisas que chama bastante atenção do terço cantado, fizemo esta montagem pra conduzir nas casas, até com pouco movimento, daí foi o contrário, hoje está sendo exibido em lugar de bastante movimento. Tem determinados momentos que a gente chama o pessoal pra cantá, pra beijá o santo, que é uma das coisas que o pessoal fica surpreso nos dias de hoje, que muita gente não conhece, muita gente se emociona, acaba emocionando até a gente: é quando o celebrante convida o pessoal pra beijá o santo. </p>
<p>Na hora que faz a procissão, que é convidado todas as pessoas pra ir beijá o santo, tem as rezas que a gente canta. A gente já chegou a rezá em lugares que tem mais de mil pessoas. Até todo mundo vir rezá, além da oração ficar extensa, fica muito cansativo pra conduzir.</p>
<p><center><img src="http://www.memoriadopovo.com.br/v1/wp-content/img/barra01.png" border="0" /></center><br />
<em><strong>Pedro Donizete da Cruz</strong>, conhecido por Zete e Pedrão, 53 anos, reside no distrito Pantano São José, município de Pouso Alegre, MG.</em><br />
<em>Entrevista realizada na residência do casal Juliana e  Roberto, no distrito Pantano São José, em 6 de setembro de 2009. </em></p>
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		<title>Pagodinho</title>
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		<pubDate>Tue, 01 Dec 2009 01:58:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bill</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Festas e rituais]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h3><center>Pagodinho, uma pessoa engajada na cultura popular </center></h3>
<p><center><object width="500" height="405"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/_gvzw6UsG7U&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;rel=0&#038;color1=0x234900&#038;color2=0x4e9e00&#038;border=1"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/_gvzw6UsG7U&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;rel=0&#038;color1=0x234900&#038;color2=0x4e9e00&#038;border=1" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="500" height="405"></embed></object></center><br />
<center>Pagodinho é multicultural. Das manifestações da cultura popular de sua região, ele participa de quase tudo: mestre de Folia de Reis, dançador de São Gonçalo, rezador da Recomendação das Almas e da Via-Sacra. Ele guarda com carinho um livrinho de rezas em latim, de onde retirou orações para a Via-Sacra Campal, realizada no bairro há anos.<br />
Além dessas aptidões, ele é radialista. Em suas manhãs sertanejas aos domingos pela Rádio Clube de Pouso Alegre, Pagodinho toca o coração de seus ouvintes com boa música e boa conversa.<br />
</center><br />
Nasci aqui no bairro dos Afonsos no dia 5 de setembro de 1951, pelo qual hoje eu faço aniversário. Nasci, meu pai já bastante doente, com cinco meses perdi meu pai, faleceu com 72 anos. Criei sob a responsabilidade da minha mãe e graças e louvado seja Deus, com muita saúde que estou até o presente momento. Trabalhei ajudando minha mãe, estudei até o quarto ano na escola do bairro do Cervo. Trabalhei na lavoura, fui pedreiro e hoje sou radialista. Comecei no rádio em 1972.</p>
<h4><center>Folia de Reis</center></h4>
<p>Comecei a Folia de Reis aos 15 anos de idade ajudando como contramestre. Depois passei a ser mestre, que é o puxador da Folia de Reis, o que canta na frente, que faz a rimação da Folia. Até o presente momento ainda participo. É uma cultura, uma dedicação, uma religiosidade. Aprendi a Folia de Reis com as pessoas mais velhas, fui aprendendo aos poucos. Aprendi com o Sr. José Ramos do Prado, já falecido, e mais outras pessoas, também já falecidas.</p>
<p>A Folia começa no dia 24 de dezembro e se encerra no dia 6 de janeiro. É formada por cinco ou seis componentes. Percorre o bairro todo e também os bairros circunvizinhos. A finalidade é retirar donativos para a realização da festa no dia 6 de janeiro. A Companhia (Folia)  tem bastante instrumento pelo qual viola, violão, pandeiro, zabumba, cavaquinho etc.</p>
<p>A simbolização da Folia de Reis é os três reis magos do Oriente (<strong><em>Belchior, Gaspar e Baltazar</em></strong>) à procura do Menino Jesus para fazer uma adoração. O mestre rima os nomes das pessoas. Por exemplo, se eu for agradecer uma esmola de nome Sebastião:<br />
<span style="font-family:'Comic Sans MS', cursive; text-align:left;"><br />
Santo Reis desceu do céu<br />
sobre você pôs a mão<br />
é com prazer que agradeço<br />
o presente de Sebastião.<br />
</span><br />
É uma rimação improvisada na hora. Ao chegar na casa da pessoa, o mestre faz uma chegada e na hora de sair faz um agradecimento com rimação:<br />
<span style="font-family:'Comic Sans MS', cursive; text-align:left;"><br />
Despeço da nossa bandeira<br />
Do filho de Nossa Senhora<br />
Vocês ficam aqui com Deus<br />
E com Deus nós vamos embora.<br />
</span><br />
O tempo que permanecemos numa casa depende do dono da casa. Ele pede para cantar e a gente vai ficando. Tem vez que a gente chega na casa de uma pessoa que morreu alguém, ele pede para cantar só um verso. Ele dá um x de esmola e já está encerrado.<br />
Neste tempo de Folia, mudou muito a população. Antes aqui tinha duas Festas de Reis num dia só, cada uma tinha umas sessenta, setenta pessoas. Hoje tem uma Festa só, mas ajunta em torno de mil e quinhentas a duas mil e quinhentas pessoas. A população do bairro aumentou, mas também vem gente de cidades vizinhas.</p>
<p>O ritual continua o mesmo, só que parece que há uma decadência, as pessoas mais novas de hoje não se interessa muito como de antigamente, parece que não tem aquele dom. Há um enfraquecimento, pois as pessoas mais antigas, Deus já levou.</p>
<h4><center>Dança de São Gonçalo</center></h4>
<p>Eu comecei a dança de São Gonçalo na casa de uma senhora devota aqui do bairro, que infelizmente já faleceu. Ela fazia dança de São Gonçalo, chamava o cantor, às vezes ele tava ocupado aí ela chamava o Pagodinho para fazer a dança. A gente fazia meio atrapalhado, meio certo. Depois com o decorrer dos tempos, a gente se aperfeiçoou. Eu comecei a cantar com o falecido Gonçalo, como ajudante. Depois o Gonçalo veio a falecer, teve uma doença incurável. Que Deus o tenha em bom lugar. Aí sobrou para o Pagodinho cantar na frente. Arrumei outro parceiro e a gente canta a dança de São Gonçalo até hoje. </p>
<p>Que eu me lembro, desde os meus sete anos existe esta dança aqui no bairro. Tem uma pessoa que puxa e a outra que ajuda. Um faz a primeira voz e o outro, a segunda. O resto das pessoas aprende na hora. O mais antigo que fazia esta dança aqui era o Vicente Arvelino, tio da minha esposa, também já falecido.</p>
<p>A dança é feita por uma promessa, às vezes a pessoa tem uma dor de braço, uma dor de perna, então, a fé faz com que a pessoa convide o Pagodinho para fazer a dança. A dança é feita por várias pessoas: vinte, trinta&#8230; Faz uma fileira à direita, outra à esquerda, conforme uma dança de quadrilha e cantam nove versos diferentes e nove voltas diferentes. Se começa com terço e o encerramento, com o beijamento da imagem de São Gonçalo. Dos dois lados do altar existe um copo de pinga, um à direita, outro à esquerda. E cada dançante faz o sinal da cruz e móia a garganta com um pouquinho de pinga, que é um ato de fé. Muitas vezes me perguntam por que esta pinga? Eu não sei explicar, mas veio do povo antigo, heranças antigas. Esta pinga era considerada remédio nos tempos de São Gonçalo.</p>
<p>Por quê São Gonçalo? Nos livros bíblicos eu não encontrei, padre algum não encontrou, mas outras pessoa me disseram que São Gonçalo era cantor. Era pobre, cantava e dançava em casas de prostituta. Com o viver da vida, ele se arrependeu e fez uma sandália de pau com pregos de ponta pra cima, calçou a sandália e ia cantando para que o sangue vertesse, para que Deus tivesse pena dele e perdoasse os seus pecados.</p>
<h4><center>Via sacra campal </center></h4>
<p>Eu me lembro quando tinha seis, sete anos, passava um senhor bem velho com uma cruz preta com um triângulo branco e uma toalha branca. Eu perguntava para minha mãe: onde vai aquela cruz? Minha mãe dizia: é a via sacra, via sacra campal, coisas antigas.<br />
A via sacra é feita em 14 estações. A primeira é feita dentro da casa da pessoa e as outras são no campo. As pessoas vão estação por estação contemplando&#8230;  E ao voltar da última estação, volta cantando a ladainha de Nossa Senhora, de onde faz o oferecimento da Via Sacra. O dono da casa também oferece um café com biscoito, um café com broa, um chá.</p>
<p>Antes acontecia todo domingo da quaresma, mas atualmente está havendo uma defasagem. Agora acontece somente em uma casa, a casa do senhor Arvelino Candinho.<br />
Não tem um caminho definido. A gente vai fazendo um caminho em zigue-zague. Sempre procura terminar embaixo de uma árvore, porque tem uma sombra muito boa. </p>
<h4><center>Recomendação das Almas</center></h4>
<p>É feito também na quaresma. O grupo é formado por cinco componentes, são cinco vozes. O único instrumento é a matraca. A gente chega nas casas das pessoas em silêncio, toca a matraca, o pessoal da casa já sabe que são as pessoas que vão rezar para as almas. Reza nove Padres-Nossos, nove Ave-Marias pra almas santas e benditas, pra almas do purgatório, pra almas de nossos defuntos, pra almas pobres cativas – aquelas pessoas escravas, que morreram de judiação, pra almas que não têm ninguém por si – indigentes que morreram pelo asfalto. </p>
<p>Muitos bairros termina a Recomendação das Almas no cemitério, mas nós terminamos aqui em qualquer casa. Passando por uma santa cruz, a gente reza e considera uma casa. Nós não rezamos em casa números pares, sempre terminamos a reza em número ímpar. São coisas antigas, tradição, não sabemos explicar. Aprendi com muitas pessoas antigas, muitas destas já nos deixaram.</p>
<p>O começo:<br />
<span style="font-family:'Comic Sans MS', cursive; text-align:left;"><br />
Alerta, alerta, pecadô<br />
Se tá dormindo<br />
Se tá acordado<br />
Veja que Deus não dorme<br />
Pra perdoá nossos pecados&#8230;<br />
</span><br />
Aí a gente pede cantando. Rezam lá um Padre-Nosso junto com uma Ave-Maria pra almas santas e benditas. Na hora de rezar é em silêncio, todo mundo fica quietinho, só no pensamento. Rezou, pede mais. E a família que tá em casa reza também em pensamento. </p>
<p>Antigamente, todos permitiam rezar pra almas. Hoje a população mudou, existem muitos chacareiros que não conhecem este ritual. A gente vai só na casa de quem a gente conhece. Antes, não existia luz elétrica, quando tocava a matraca, se existia luz de lamparina, apagava a luz. Não podia abrir a porta, nem janela. Depois que terminava a reza, o dono da casa, se tivesse um prato de bolinho, um bule de café, ele chamava o pessoal. Deixava no alpendre ou na janela, o pessoal comia em silêncio e ia embora. Hoje modernizou, quando acaba de rezar, o dono da casa convida pra entrar.</p>
<h4><center>Canto de trabalho (mutirão)</center></h4>
<p>O mutirão é formado por 30, 40 pessoas. As pessoas trabalhavam no seu serviço e depois iam pro mutirão. E capinando formava um grupo de cinco pessoas que cantavam no mutirão. Quem tava cantando não fazia o serviço bem feito não, ficava sempre uns matos pra trás. Era uma coisa muito divertida, hoje não existe mais. Deixou saudade.</p>
<p>Os versos eram improvisados na hora:<br />
<span style="font-family:'Comic Sans MS', cursive; text-align:left;"><br />
Meu amigo, meu irmão<br />
Com certeza vai chover<br />
Se tivé um gole da pinga<br />
Traga lá pra nós beber.<br />
</span><br />
Não me lembro do último mutirão que houve. A enxada foi para a cidade. O servente de pedreiro é o homem da enxada da roça. E na roça, em vez de enxada, o trator. Inverteu. </p>
<p><center><img src="http://www.memoriadopovo.com.br/v1/wp-content/img/barra01.png" border="0" /></center><br />
<em><br />
<strong>Adolfo Rodrigues</strong>, conhecido por Pagodinho, 58 anos, reside no bairro dos Afonsos, Pouso Alegre, MG. A entrevista foi realizada em sua residência em 5 de setembro de 2009.</em></p>
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		<title>Geraldo Henrique</title>
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		<pubDate>Tue, 01 Dec 2009 01:57:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bill</dc:creator>
				<category><![CDATA[Religião, Rituais e Festas Religiosas]]></category>
		<category><![CDATA[Vozes de Mestres]]></category>

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		<description><![CDATA[Festas e rituais]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h3><center>Geraldo Henrique, propostas para manter festejos populares</center></h3>
<p><center><object width="500" height="405"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/I5z-6MKtoNQ&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;rel=0&#038;color1=0x234900&#038;color2=0x4e9e00&#038;border=1"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/I5z-6MKtoNQ&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;rel=0&#038;color1=0x234900&#038;color2=0x4e9e00&#038;border=1" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="500" height="405"></embed></object></center><br />
<center>Como presidente da Associação do bairro dos Afonsos, Geraldo Henrique tem como grande meta dar continuidade à Festa do Biscoito e à Festa de Santo Afonso.<br />
Amparado na experiência dos pioneiros dessas comemorações e no esforço da comunidade, ele procura incentivar estes festejos: agregando mais pessoas, incrementando a programação e valorizando a tradição.<br />
Dividido entre a cidade e o seu lugarejo, seu grande desejo é mudar de vez para a casa que ele construiu ali no bairro e ficar mais perto da história do seu povo. </center></p>
<h4><center>Os primeiros anos da Festa do Biscoito</center></h4>
<p>Meu nome é Geraldo Henrique Vieira, tenho quarenta anos e sou presidente da Associação de Desenvolvimento Rural do Bairro dos Afonsos (Aderba). Nós temos a responsabilidade, entre outras coisas, de dar continuidade à Festa do Biscoito que acontece aqui na comunidade dos Afonsos.</p>
<p>Um pouquinho do eu que já vivenciei da experiência dos antigos moradores é que o Senhor João Amadeu Barcelos, um dos pioneiros desta Festa, numa brincadeira, me parece que há quinze ou vinte anos atrás, resolveu num dia de comemoração distribuir biscoitos para a comunidade. Se não me engano ele até fez um biscoito maior do que o tradicional e saiu distribuindo e com isso acabou iniciando a definição dessa Festa. A partir daí começaram a montar uma estrutura para a realização da Festa e eu tô envolvido com essa Associação e com a preparação desse evento já faz seis anos.</p>
<h4><center>A responsabilidade de continuar</center></h4>
<p>A gente sempre ouve falar de como era a preparação da Festa, envolvendo o pessoal da comunidade, trabalhando sempre na preparação de todas as comidas tradicionais relacionadas com a mandioca e, também relativas ao polvilho que é a base da preparação do biscoito. Então, atualmente a gente tá trabalhando com alguns moradores daqui da comunidade que estão envolvidos com toda a preparação do biscoito e dos quitutes, até mesmo antes da Festa, para que no dia tenha nas barracas a demonstração dos produtos da comunidade. E a gente tem uma preocupação muito grande com um evento que tornou, assim, uma evolução na parte de participação da comunidade e de todo pessoal de Pouso Alegre e redondeza. Nos últimos anos tá tendo a participação de duas a três mil pessoas no dia da Festa, que vem até aqui provar nossos produtos.<br />
No sábado a gente prepara além dessa questão vinculada ao biscoito e aos derivados da mandioca, a gente procura uma diversão pro pessoal, a gente contrata alguns shows com bandas e no domingo a gente deixa a Festa mais familiar, vamos dizer assim, com o concurso do pé da mandioca com a premiação com o tamanho e peso do pé da mandioca. Esse ano, se não me engano, o primeiro lugar ganhou o pé da mandioca que pesou sessenta quilos. Então, realmente é uma coisa bonita, tiveram uns dezenove participantes e a gente tem a colaboração de alguns patrocinadores que dão premiação como um saco de adubo, um enxadão, um facão, tudo vinculado a essa questão da mandioca.</p>
<h4><center>Os parceiros</center></h4>
<p>Então, graças a Deus, a gente tá conseguindo com a realização dessa Festa, levantar algum recurso financeiro pra gente tá fazendo uma infraestrutura boa aqui no bairro pra atender não só a Festa do Biscoito, mas também pra atender todos os outros eventos. </p>
<p>Então a gente tem um envolvimento muito grande, também, com a parte esportiva e a parte de agricultura e que esses recursos financeiros, hoje, ajudam muito nessa questão. </p>
<p>E é por aí, nós temos as pessoas que dão muito apoio pra nós, principalmente o Senhor Arvelino, ele é um parceiro nosso, não posso esquecer essa tradição que veio lá de trás com o Senhor João Amadeu Barcelos, meu tio Milton que apoiou muito na parte da Associação, liberando espaço para a realização dessa Festa. Então, graças a Deus já estamos preparando a próxima Festa pra 2010. A décima quinta nem bem terminou e já estamos pensando em como preparar a próxima estrutura pro ano que vem.</p>
<p>Esse ano foi gasto mais ou menos uns cento e dez quilos de polvilho pra fazer os biscoitos comercializados na Festa. Aqui no bairro nós temos três fábricas de polvilho. Tem a &#8216;Santo Afonso&#8217;, que é do Senhor João Amadeu Barcelos; tem a &#8216;São Sebastião&#8217;, do Senhor Arvelino Ribeiro, e tem a &#8216;3 Irmãos&#8217;, que era o João, o Sérgio e o Aparecido. A relação dessas fábricas com a Festa do Biscoito é direta, até porque todas as três fábricas e os seus responsáveis participam constantemente dando apoio para a Festa, inclusive doando polvilho para a confecção dos biscoitos.</p>
<p>No dia da Festa é feito o biscoito tradicional, o biscoito palito, o pão de queijo, o biscoito pipoca e o biscoito recheado com pernil assado. Então teve uma boa variedade de biscoitos esse ano. </p>
<h4><center>A data e a preparação da Festa</center></h4>
<p>O período que a gente tem como tradição para fazer a Festa varia entre o mês de julho e agosto. Especificamente no mês de julho, nós temos dificuldade por causa do frio e isso prejudica um pouco a realização da Festa. As bandas que são contratadas para tocar de sábado para domingo, devido ao frio intenso diminui o movimento da Festa. Então nós optamos por realizar em agosto até em função de coincidir com outros eventos, como por exemplo, a Festa de Silvianópolis, de Congonhal e de Borda da Mata. Elas são muito próximas deste período, então resolvemos marcar uma data, que esse ano aconteceu nos dias oito e nove de agosto; aí não coincidiu com os outros eventos e o clima favoreceu para realizar a Festa.</p>
<p>Quando começou a definir a data da Festa, a forma como ela ia ser realizada e as contratações, nós começamos os preparativos com três meses de antecedência. A gente tem o costume de reunir toda segunda-feira na sede da Associação, pra tá trabalhando a melhor forma para realizar a Festa. A gente tem hoje doze pessoas na diretoria que durante os quinze dias que antecedem à Festa atuam bastante nos preparativos, e depois são envolvidas mais umas quarenta pessoas, ajudando de uma forma ou de outra nessa preparação, como o concurso do pé da mandioca e distribuição dos convites para os moradores da comunidade. Nós fazemos a abertura do concurso do pé da mandioca nos bairros vizinhos, não tem restrição para participantes, então tem um envolvimento grande dos moradores, tem as pessoas que trabalham nas barracas, na preparação dos shows, na contratação. Então, considerando as barracas da comunidade que expõem os produtos, como biscoito, broa, caldo de feijão e o caldo de mandioca, tem aí o envolvimento de umas quarenta pessoas.</p>
<p>Para preparar os biscoitos nós temos o pessoal que trabalha especificamente com o Senhor João do Arlindo e sua esposa Dona Tereza. Eles preparam a massa em casa, pra não ter problema no dia por causa do movimento da Festa. Este ano, também, teve o Salviano que já tem experiência com padaria e deu uma força grande pra nós. Ele preparou com a ajuda da Rosângela, uma moradora daqui do bairro, cedendo a masseira para preparar um volume maior de massa. Então sempre tem o apoio de um ou de outro para que no dia da Festa a gente possa tá oferecendo o principal, que é o biscoito. A maioria dos biscoitos é feita no dia da Festa, mas a gente tem que garantir um pouco mais, então a gente deixa uns sacos de biscoito preparados um dia antes, porque a gente não tem noção de como vai ser o movimento.</p>
<h4><center>Novo forno</center></h4>
<p>Este ano foi construído um forno maior lá na Associação pela mesma pessoa que prepara os assados do dia da Festa, o Senhor João do Arlindo, que junto com o Zé Raimundo e o Jorginho ofereceram a mão de obra pra construir este forno que tem três metros quadrados. Ele tem o formato tradicional oval e a parte estrutural é quadrada, feita de tijolo que serve para sustentar a areia que vai aquecer e manter a temperatura do forno. Ele é bem estruturado e foi muito elogiado por todos que estiveram lá, presenciando tanto a construção como a utilização dele. Antes, o forno era em outra área, mas devido à construção de uma casa bem próxima dele, a fumaça tava incomodando o vizinho, então optamos por investir nessa área, que a Associação tinha disponível, para a construção de um novo forno. Ele é à lenha e tem capacidade para assar trinta formas de biscoito e atende também outros eventos da comunidade, onde são assados os frangos e as leitoas. Foi um trabalho maravilhoso do Senhor João pra atender as Festas da comunidade. Hoje a gente atende com mais tranquilidade os participantes da Festa, oferecendo um biscoito quentinho.</p>
<h4><center>A nova estrutura da Festa</center></h4>
<p>Nas primeiras Festas, a gente tinha o trabalho de montar a estrutura com lona e bambu. Hoje estamos utilizando os recursos que conseguimos arrecadar com a Festa para montar a estrutura metálica que tem quatrocentos e cinqüenta metros quadrados e mais a área do biscoito com oitenta metros quadrados, onde está o forno. Então a gente pretende ainda evoluir nessa parte estrutural para que toda a comunidade possa utilizar esta área.<br />
Fazemos um bom aproveitamento financeiro com os nossos recursos e estamos estruturando a sede da Associação pra atender todas as áreas da comunidade.</p>
<p>No início dessa Festa quando eu era participante e vinha curtir a Festa, o volume de pessoas era menor, depois ela foi evoluindo através da propaganda boca a boca, de cartazes e programas de rádio e o volume de pessoas cresceu muito e isso é bom, porque traz mais recursos pra nós, mas por outro lado trouxe a falta de segurança. Aí nós tivemos que fazer algumas modificações ao longo do tempo, como o fechamento da área da Festa. Antes era aberto ao público, sem restrição, só que ficava difícil controlar algum problema, então há três anos resolvemos fechar e cobrar bilheteria para sustentar as despesas da Festa e com isso demos mais segurança para as pessoas que querem curtir a Festa.<br />
Mesmo com todas essas mudanças a Festa não perdeu suas características, porque ainda tem o concurso do pé da mandioca, e nessa brincadeira nós valorizamos a matéria-prima do biscoito. Os assados também são feitos no dia da Festa, então, a tradição continua.</p>
<p>Hoje, quando se fala na Festa do Biscoito, logo se lembra do bairro dos Afonsos. Ela se tornou referência para o bairro e por isso ela é importante para a comunidade que se une para manter essa tradição.</p>
<h4><center>A Festa de Santo Afonso</center></h4>
<p>Mais uma tradição do bairro é a Festa de Santo Afonso. Esse ano a Associação fez uma parceria com os coordenadores da Festa que são membros da igreja daqui do bairro, para facilitar o trabalho deles na parte das festividades. Existe um barracão do lado da igreja, só que é um lugar que não comporta muita gente e tem o trabalho de montar a estrutura com lona e bambu. Então, o coordenador, o Ivan, entrou em contato conosco e fizemos a parceria. A parte religiosa acontece na igreja e os eventos festivos e o bingo acontecem na sede da Associação. A Festa acontece no sábado à noite e no domingo o dia todo para comemorar o dia de Santo Afonso, que é no dia primeiro de agosto, mas antes disso é preparada a novena. A gente procura fazer a Festa no dia primeiro mesmo, mas não necessariamente acontece assim. Em função da Festa do Biscoito, que aconteceu nos dias oito e nove de agosto, e os padres da paróquia de Fátima, responsáveis pelo nosso bairro, estavam num encontro no Seminário e não tinham disponibilidade para dar o apoio na celebração eucarística, a Festa esse ano foi adiada para os dias cinco e seis de setembro.</p>
<h4><center>Encontro de Carreiros</center></h4>
<p>Aqui no nosso bairro acontece também o Encontro de Carreiros, um evento idealizado pelo Senhor Arvelino Ribeiro e pelo Benedito Carlos. Eles sempre participaram desses desfiles de carros de boi aqui na redondeza, como em Silvianópolis, Congonhal e Ipuiuna e há três anos eles idealizaram esse encontro de carreiros aqui nos Afonsos. </p>
<p>Este ano, o evento foi realizado uma semana depois da Festa do Biscoito. Eu cadastrei oitenta e seis carros, considerando que cada um tem em média de seis a doze bois, então nós tivemos aqui no pátio da Associação em torno de seiscentos bois. Teve participante de Silvianópolis, Congonhal, Espírito Santo do Dourado e de outros bairros de Pouso Alegre, como o Brejal e do Pantano São José.</p>
<p>Foi um desfile muito bonito e o Senhor Arvelino e o Carlos Norinho não querem deixar essa peteca cair não, eles pretendem melhorar ainda mais para o ano que vem. Eles têm que fazer uma preparação muito grande pra esse evento, como proporcionar uma estrutura para os carreiros, porque alguns chegam de longe e vem tocando os carros pela estrada afora. Quem vê eles pelo caminho fica impressionado, porque tem muita gente que nunca viu um carro de boi.</p>
<p>No dia do desfile, eles ficam todos ali no pátio e têm alguns que chegam à noite e deixam a boiada ali no pasto e no domingo de manhã preparam o desfile. Eles têm um trajeto já determinado para o desfile e depois voltam pro pátio. Esse evento conta com a colaboração de alguns moradores na parte de alimentação para os participantes, considerando que cada um tem de dois a três ajudantes que vêm pra tomar conta da boiada, então deve ter tido umas duzentas pessoas envolvidas no desfile. A refeição é feita de forma gratuita.</p>
<p>O desfile tem premiação, também como sacos de milho, sal para a boiada, e cada participante ganhou um facão de lembrança.</p>
<p>Este ano ainda não teve quesito para julgamento, mas teve sorteio para que todos os participantes levassem uma lembrança do encontro, como forma de incentivo. </p>
<p><center><img src="http://www.memoriadopovo.com.br/v1/wp-content/img/barra01.png" border="0" /></center><br />
<em><strong>Geraldo Henrique Vieira</strong>, 40 anos, reside na cidade de Pouso Alegre e  no bairro dos Afonsos, município de Pouso Alegre, MG. Entrevista realizada no dia 5 de setembro de 2009.</em></p>
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		<title>Zé Raimundo da Folia</title>
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		<pubDate>Tue, 01 Dec 2009 01:57:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bill</dc:creator>
				<category><![CDATA[Religião, Rituais e Festas Religiosas]]></category>
		<category><![CDATA[Vozes de Mestres]]></category>

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		<description><![CDATA[Festas e rituais]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h3><center>José Raimundo: “Cantadô de Reis tem que olhar pro céu, ter o dom do Espírito Santo.”</center></h3>
<p><center><object width="500" height="405"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/tk1j0um4bIU&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;rel=0&#038;color1=0x234900&#038;color2=0x4e9e00&#038;border=1"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/tk1j0um4bIU&#038;hl=pt_BR&#038;fs=1&#038;rel=0&#038;color1=0x234900&#038;color2=0x4e9e00&#038;border=1" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="500" height="405"></embed></object></center><br />
<center>A avó ensinou-lhe a rezar o terço. Tomou gosto pelas coisas de Deus e encontrou na Folia de Reis, uma forma de cultuar o sagrado, porque, para ele, o ritual é a expressão da religiosidade do seu povo e, ele, um instrumento. Falante, bem humorado e gozador, José Raimundo narra sua trajetória de mestre de Folia e ressalta o novo olhar da Secretaria de Cultura de Pouso Alegre que está buscando formas de incentivar as manifestações populares locais, com ênfase para a Folia de Reis do bairro dos Afonsos, a única do município.</center></p>
<h4><center>Com 17 anos, eu comecei a cantar na frente</center></h4>
<p>Sou nascido em 1964. Não nasci nesse lugar que moro hoje. Nasci no sítio vizinho em propriedade arrendada. A arte, a música, vem desde a minha infância. Minha vó que me ensinou a rezá o santo terço. Desde de criança, eu caminhava atrás da Folia de Reis e fui me interessando por aquilo. </p>
<p>Com 17 anos, eu comecei a cantar na frente na Folia de Reis. Mais jovenzinho, eu cantava no cordão. Numa certa noite, um amigo meu, que já faleceu, o Gonçalino Prado, eu não conhecia ele, nem ele me conhecia, ele me deu um violão e disse: “ vai lá e canta e faz este agradecimento assim!”.</p>
<p>Eu, muito inocente, simplesmente fui e os conterrâneos que estavam cantando me apoiaram. E isto foi minha primeira cantoria na Folia. Depois disso daí, não parei mais. Nós tinha muito mestres, mas sempre sobrava meu espaço. Inclusive teve um senhor que deu uma janta na casa dele, o Joaquim Martins, já falecido. Convidou os folião, todos eles. O folião mais novo que existia no grupo era eu, só que o dono da casa exigiu que eu fizesse a chegada e cantasse. Olha, pra você vê o tamanho da responsabilidade! No meio de tanto folião tudo já formado, e eu começando tê que encará esta batalha! Fui iluminado por Deus, pelo Espírito Santo. Cantadô de Reis tem que olhar pro céu, ter o dom do Espírito Santo. Eu fui feliz, o dono da casa ficou super contente, os folião que tava me parabenizaram pelo que cantei. Inclusive, quando cheguei no presépio, pensaram que eu ia fazer isso ou aquilo, mas eu estava iluminado. Então aconteceu e tá até hoje.</p>
<p>Assim vem vindo a minha vida. Sou católico, romano, praticante e vivo aqui no meu sítio fazendo parte de tudo que existe na comunidade: do conselho deliberativo da Associação, da Santa Missa, da Folia de reis, que hoje tá sendo para nós um benefício grande através da Secretaria de Cultura, que tá valorizando nosso trabalho, que nós gostamos.</p>
<h4><center>Vida de mestre</center></h4>
<p>Sou mestre de Folia de Reis. Ninguém me ensinou. É um próprio dom de Deus. Hoje estou como representante da cultura da Folia de Reis em Pouso Alegre. O bairro dos Afonsos é o único bairro que representa Pouso Alegre, que executa e faz a Festa de Reis. Nós somos hoje os privilegiados.<br />
Meu papel na Folia é mestre, o qual é responsável por toda música que sai de minha boca e dos componentes. São de cinco até sete pessoas, e no máximo oito, para manter a Folia. Cada um tem uma função: mestre, contramestre, tala, quarta, quinta, sexta e sétima voz. O tala, aqui nós chamamos de taleiro, é responsável pelo cordão, que vai da quarta à sétima voz. O refrão sai da boca do tala.</p>
<p>Tem também o bastião. Nós estamos trabalhando com um só, mas pretendemo colocá dois. Nós temo também as pessoa que só carrega a bandeira. Nóis trata de bandeireiros. Quando a gente chega numa casa, aí vem o bastião, que tá do lado da bandeira. É o bastião que vai pedi licença pro dono da casa se nóis podemo entrar pra dentro; se ele vai receber a Companhia de Reis; se ele gosta; como vai a família dele.<br />
O caboclo abre a casa e nóis entremo. A maioria das casa tem um presépio. É naquele presépio que a gente tem obrigação de fazer a saudação primeiro do Menino Jesus, que está se comemorando aniversário dele. Se nóis temo um bastião que saiba fazê isso (tem muito bastião que não sabe fazê isto), aí o bastião que vai fazer a saudação no presépio. Se ele não tem sabedoria para fazê, aí cabe para o mestre fazê. Aí eu vou cantar, vou falar alguma coisa. Esta é a saudação. Aí, depois, o resto vai acontecendo. Por exemplo, eu posso dizer assim:<br />
<span style="font-family:'Comic Sans MS', cursive; text-align:left;"><br />
Aqui está esta bandeira<br />
 E nela tem as três image.<br />
 É o retrato dos treis Reis Mago,<br />
 Quando andaram de viage.<br />
</span><br />
E por aí se vai. Eu faço vinte e cinco verso, cinquenta verso, um atrás do outro. São saudações. Só que, como é festa, a gente não tem muito tempo. A gente faz uma saudação pequena. Depois nós reza treis Ave Marias e depois nois vamo atrás do presente, que é pra pudê nóis fazê a Festa.<br />
Aí é o bastião que vai conversá com o dono da casa pra vê o que ele pode ajudá. Quando ele vai pedi ele está com uma máscara no rosto. Ele não é conhecido. Ele vai conta pro o dono da casa porque é o fundamento daquela Companhia de Reis. </p>
<h4><center>Bastão em ação</center></h4>
<p>Eu já vesti de bastião, por isto eu sei contá. É assim: </p>
<p>“Nóis tamo andando, fazendo adoração para o Menino Jesus, na semelhança do que os treis reis fizeram. E nóis estamos querendo festejá no dia 6 de janeiro e pra nóis fazer uma festa, nóis precisa de ajuda.”</p>
<p>Aí a gente pergunta pro dono da casa:</p>
<p>“Com que você pode ajudá. Com um frango do terreiro, uma leitoa, uma vaca, um boi ou é dinheiro?”</p>
<p>Normalmente, as pessoa do nosso bairro costumam segurá a bandeira pra recebê uma bênção, porque os devoto de Santos Reis, acreditam em Santos Reis. Aí uma família de cinco pessoas vem cada hora um pra segurá a bandeira. Por exemplo, uma pessoa de nome Alzira. Aí o bastião diz pra mim que sou o mestre:</p>
<p> <span style="font-family:'Comic Sans MS', cursive; text-align:left;">“R$ 50,00 de presente da Alzira”. </span></p>
<p>Aí a gente agradece:<br />
<span style="font-family:'Comic Sans MS', cursive; text-align:left;"><br />
Olhando pra essa bandeira,<br />
 Lá do céu meu Deus inspira.<br />
 Canto pra Santos Reis,<br />
 Agradecendo à Alzira.<br />
</spam><br />
O nome da pessoa e do Santo Reis tem que estar no verso. Agradece todos, termina ali. Em alguns lugar, costuma servir um café, em algum lugar a gente janta. Pára tudo os instrumento, e neste intervalo que a pára, os dono da casa pega a bandeira e leva para todos os cantos da casa, pedindo a proteção dos Santos Reis por mais aquele ano. Aí eu canto um verso pedindo a minha bandeira.<br />
<span style="font-family:'Comic Sans MS', cursive; text-align:left;"><br />
Traga lá minha bandeira,<br />
 Dos treis reis eu quero ver.<br />
 O café que vóis serviu<br />
 Vamos agora agradecê.<br />
</span><br />
E por aí vai indo. Aí eu canto convidando eles para a Festa. Canto a despedida.<br />
<span style="font-family:'Comic Sans MS', cursive; text-align:left;"><br />
O festeiro me pediu<br />
 Prá deixá este recado:<br />
 Prá Festa do dia 6,<br />
 Vocês estão convidado.</p>
<p>Se despede da bandeira,<br />
 Que nóis vamos indo imbora.<br />
 Voceis fica aí com Deus<br />
 E nóis vamo com Nossa Senhora.</p>
<p>E por aí vai tocando o barco.<br />
</span><br />
Folião não tem nada escrito. Não pode levá papel na mão. Pode até escrevê a chegada, mas tem que gravá tudo na mente. O resto é tudo feito na hora. A festa é no dia 6 de janeiro, dia de Santos Reis. No dia da Festa tem a coroação dos festeiro do próximo ano. Tem a chegada de Santos Reis, um grupo, dois grupo, e outras companhia que participa. Nóis canta nos treis arco de bambu. Cada arco tem uma image. No primeiro arco tem um anjo, que anunciou a Maria. No segundo, tem uma estrela, a luz da caminhada dos treis Reis Magos e no terceiro, um presépio, José, Maria e o Menino Jesus. E depois, é comida à vontade, muita gente comendo e bebendo, e vem gente de longe. Tem muita gente que vem e qué ajudá e vê a Folia. Tem um grupo de Folia que fica cantando.</p>
<p>Pra mim, a Folia de Reis representa a fé. É o melhor, eu gosto. Eu nasci para andá junto de meu povo. Eu quero tá no meio. Eu sou uma ovelha, que quer estar no meio do rebanho todinho. Eu não quero ficá separado. As pessoa me respeita. Eu tenho meus companheiro. Eles me respeita tanto. Eles falam: </p>
<p><span style="font-family:'Comic Sans MS', cursive;">“o Zé, o que o cê combinou lá, ta combinado. O que ocê fizer, tá feito.” </span></p>
<p>É assim. A Folia de Reis é cultura, mas pra nóis é religião.</p>
<p>Este é o primeiro ano que a Cultura tá querendo nos ajudá, a valorizar uma coisa que nóis já temo há muitos anos, e levar ao conhecimentos de pessoas que não conhecem. </p>
<p>Queremos chegar até o topo, não só a nossa Companhia, mas todas as Companhias de Reis. Se não valorizar, vai chegar uma hora, que ninguém vai saber o que é uma bandeira de Santos Reis, o que ela significa.<br />
<center><img src="http://www.memoriadopovo.com.br/v1/wp-content/img/barra01.png" border="0" /></center><br />
<em><strong>José Raimundo Ribeiro</strong>, o Zé do Avelino, tem 45 anos, reside no sítio São Sebastião, localizado no bairro dos Afonsos, município de Pouso Alegre, MG.<br />
Entrevista realizada em 1º de outubro de 2009, em sua residência.</em></p>
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